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Clipe do desfile do Quem São Eles

fevereiro 27, 2010 Deixe um comentário

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Samba enredo do Quem São Eles

fevereiro 13, 2010 1 comentário

Paes Loureiro – Voz da Poesia, Pássaro da Terra, Poeta da Amazônia

Autoria:
Jamil Mouzinho
Composição:
Diego Trindade, Fabrício Monteiro, Geraldo do Cavaco, Bola SP

Clique para ouvir

* * *

Que felicidade, amor
O Quem São Eles na Aldeia
A minha águia pelo ar
Em suas asas o poeta vai voar

A poesia me levou
A viajar nessa história
Abaetetuta que abençoou Terra
A sua bela trajetória
Às margens do rio Meruí
Capital dos brinquedos de miriti,
Retrato de um povo de fé e tradição
Paes Loureiro
És o grande filho deste chão!
Cidade Luz também o viu brilhar, ô ô ô
Poeta, compositor,
Pelas artes de um apaixonado
Ilustre professor.

Nosso cantar na Amazônia
Com “Três Flautas vou mostrar”
“Deslendário” de um “Altar em Chamas”
“Porantim” e “Preamar”

Hoje vou reviver na passarela
“É lindo reencontrar um grande amor”
Com povo na avenida
A nossa escola é realmente a mais querida
E faz pulsar meu coração
Enredos de pura emoção
Aplausos da cultura popular
Ao pássaro da terra
Com muito orgulho vamos homenagear

Que amor felicidade …

* * *

Sobre a escola de samba:
A Associação Cultural Recreativa e Carnavalesca Império do Samba “Quem São Eles” foi fundada em 28 de Janeiro de 1946, no bairro do Umarizal, na cidade de Belém/PA. É um das escola mais antiga do Estado e possui sede na Avenida Almirante Wandenkolk, nº 680 (Umarizal/Belém/PA). O “Quenzão”, como é conhecida a “escola do povo”, tem sua história marcada pela presença de pessoas notáveis, como Eneida de Moraes, Edir Proença, Paes Loureiro, Simão Jatene, David Miguel e outras mais.

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Quem São Eles presta homenagem a Paes Loureiro

janeiro 30, 2010 1 comentário

“Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”. O refrão da música de Alcione resume bem a dedicação do Império de Samba Quem São Eles na luta para levar o seu carnaval às ruas de Belém.

Apesar de todas as dificuldades financeiras e estruturais, a escola, que completou 64 anos na última quinta-feira, promete um desfile sem glamour, mas com acabamentos bem feitos.

“Eu estaria mentindo se dissesse que vamos chegar arrasando, com fantasias e carros alegóricos diferenciados. Mas vamos abusar da nossa criatividade e apostar no acabamento”, diz Jamil Mouzinho, vice-presidente e diretor de carnaval da agremiação.

O enredo deste ano será “Paes Loureiro – A voz da poesia, pássaro da terra, poeta da Amazônia”, encerrando a trilogia de escritores paraenses iniciada em 2008 com Benedito Nunes e seguida por Dalcídio Jurandir, em 2009.

“Nossa intenção é mostrar como os três escritores abordam a Amazônia de maneira diferente em suas obras. O Paes Loureiro vai encerrar a trilogia por ter uma grande ligação com a escola. Foi ele quem criou a Ala de Compositores do Quem São Eles, propôs diversos enredos e compôs muitos sambas-enredo”, explica Jamil Mouzinho.

Para a avenida, serão levados três setores, em que o público poderá acompanhar a história do poeta. No primeiro, denominado “O Berço do Poeta”, será mostrado um pouco de Abaetetuba, município onde Paes Loureiro nasceu, com suas características, como os ribeirinhos, os brinquedos de miriti e os engenhos de açúcar.

Já o segundo, “O Poeta das Letras e da Cultura Popular”, será uma homenagem a todas as obras do escritor. E no terceiro, “O Poeta, o Samba, a Emoção do Reencontro”, uma alusão às propostas de enredo e aos sambas compostos por ele para a agremiação.

O carnavalesco responsável é Jorge Bittencourt, com assistência técnica de Silas Nascimento. A comissão de frente está sendo ensaiada por Ana Unger e o samba-enredo é de Diego Trindade, Fabrício Monteiro, Geraldo do Cavaco e Bola SP.

“Não houve concurso para a escolha do samba-enredo. Nós mesmos decidimos quem seriam os compositores. Exceto o Bola, todos são moradores do bairro do Umarizal, e era exatamente isso que queríamos, para criar uma identidade nossa na produção”, diz o vice-presidente.

Nos bastidores, trabalho redobrado

Quem apenas assiste ao desfile na avenida não imagina o trabalho e o tempo gasto na produção das fantasias e dos carros alegóricos. No caso do Quem São Eles, a produção começou em junho, com a apresentação dos modelos dos figurinos e dos carros alegóricos.

Em agosto, os compositores receberam a sinopse do desfile para que pudessem compor o samba-enredo, que foi apresentado três meses depois. Em novembro ficaram prontos os protótipos das fantasias. Já em dezembro, começou a confecção das alas, seguida da produção dos carros.

“Como não temos muito dinheiro, não podemos adiantar a produção e temos que esperar a ajuda da Prefeitura e do Governo do Estado, que nem da para tudo. As rendas extras são de eventos realizados durante o ano e da colaboração de beneméritos”, comenta Jamil.

Para reduzir os custos, a escola opta pela utilização de material reciclado. No caso do Quem São Eles, o plástico estará presente de diversas maneiras, seja na produção das fantasias seja na dos carros alegóricos.

A Lourdes Silva, 49, é baiana de destaque há seis anos e há 20 ajuda na confecção das fantasias. Ela diz que o trabalho no barracão é puxado. “Praticamente moramos aqui. Em dezembro e janeiro eu fecho a vendinha da minha casa e me dedico apenas ao carnaval”, diz.

Lourdes já participa há 35 anos do carnaval do Quem São Eles. “Comecei como passista, aos 16 anos, e não parei mais. Já integrei as alas, harmonia, diretoria e agora estou como baiana de destaque”, ressalta, com orgulho.

Diário do Pará

Conheça o samba-enredo

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EU DEFENDO

janeiro 20, 2009 1 comentário

O tombamento do Teatro São Cristóvão, Teatro de Pássaro

João de Jesus Paes Loureiro

O Teatro São Cristóvão, fica localizado na parte interna do terreno que tem, na área da frente, a sede do tradicional e importante Sindicato dos Motoristas de Belém. Ainda que esteja em São Paulo no período em que se comemora a fundação de Belém do Pará, soube da notícia do pretendido “tombamento” isolado da sede do Sindicato, gerando divergências quanto à validade ou não de incluir também nesse processo de tombamento o teatro. Com sempre há conflito de opiniões no torvelinho que gira no eixo desse tipo de tema, não posso me omitir no momento em que se coloca essa questão, quando ainda há tempo de poder contribuir ao seu encaminhamento. Coloco, mesmo à distância, meu ponto de vista próximo do problema, uma vez que venho testemunhando como poeta (escrevi, publiquei, tendo sido posto em cena, musicada por Waldemar Henrique, a peça “Pássaro da Terra”, dentro da estrutura cênica desse teatro popular), pesquisador (analiso esse teatro paense em minha tese de doutoramento “Cultura Amazônica – Uma poética do imaginário”) e administrador público (quando desempenhei as funções públicas de Secretário Municipal de Educação e Cultura – de onde saiu a Fumbel, Superintendente da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, Secretário de Estado da Cultura e Presidente do Instituto de Artes do Pará) a importância artística e cultural do Pássaro Junino e o significado social desse espaço cênico. Não poderei apresentar dados estatísticos relativos ao tema da relevância cultural desse espaço, visto não estar em Belém, mas, para quem quiser entender, as palavras bastarão para demonstrar o que desejo, fruto de compromisso com a cultura do meu amazônico Estado.

A história, o imaginário, a memória, os signos culturais, ainda que conceitos abstratos, necessitam estar ancorados na realidade concreta para se sustentarem no tempo. É o que, referindo-se à ficção romanesca, Roland Barthes denomina de “efeito do real”. O real legitimando o espiritual, o concreto sustentando o imaterial. Todo espaço de concretização da história e da cultura torna-se um espaço “sagrado” e cerimonial de legitimação daquilo que nele fez a sua realidade. A interminável guerra no oriente médio é também uma luta pela posse de espaços concretos de legitimação imaterial de crenças.

A perda dos lugares é intercorrente com a perda de suas significações. E, ao mesmo tempo, a diluição de sentido daquilo que nesses espaços construiu sua existência. A destruição do Lago Espelho da Lua, por exemplo, no município paraense de Faro, lugar da celebração anual de amor das Icamiabas – as Amazonas, seria um golpe mortal, a longo prazo da lenda, que é uma das faces do rosto de nossa identidade. O que seria do Círio de Nazaré sem o lugar caminhante de sua peregrinação da Sé à Basílica-Santuário? Há Círio de Nazaré em outros lugares. Mas o lugar legitimador do Círio de Nazaré, mesmo em Belém do Pará, é o espaço desse chão que vem da Sé, bordeja o Ver o Peso, navega pelo Boulevard, ondeia sob os túneis de mangueiras da Presidente Vergas e Av. Nazaré, até desaguar na Pça. Santuário da Basílica. Os espaços concretos transfiguram-se em espaços simbólicos e são ritualisticamente suportes concretos da imaterialidade desses bens. Haveria perdas essenciais para o mundo católico, por exemplo, a destruição da Basílica de São Pedro e sua Capela Sistina. Risco para a devoção à N. S. de Fátima decorreria do corte da oliveira sobre cuja copa a santa pairou diante do olhar extasiado daqueles irmãos camponeses Lúcia, Jacinta e Francisco.

Os lugares resultam de construção material e espiritual, visível e imaginária, individual e social. Mas o produto e o destino dessa construção plural é coletivo. Se a casa é do indivíduo, a cidade é de todos os seus habitantes, da sociedade que nela constitui o pertencimento sua humanidade. Há, portanto, uma alma na cidade tecida pela cultura e o entrelaçamento das vidas, que une passado ao presente e sua passagem para o futuro. Dessa atmosfera espiritualizante revela-se a poética das cidades que faz delas uma integridade trasladando-se no tempo, que não deve sofrer violências simbólicas por soluções urbanísticas que não respeitem sua história cultural e a pluralidade de direitos dos cidadãos sobre a sua cidade.

Creio que, uma das questões éticas na estética de uma cidade decorre dos desenraizamentos provocados na medida em que se destroem os referenciais da memória, abrindo-se campo para uma espécie de “nostalgia sem memórias”. Ou, como quer Frederic Jamerson, a nostalgia de um presente que se perde. Pela homogeneização, quando se perdem os referenciais locais, projetando-se nas paisagens da construção de mundos imaginados, as pessoas, vivendo que vivem no lugar, imaginam-se vivendo vidas de outras cidades, de outras vidas.

Voltemos à nossa questão particular: O Teatro São Cristóvão. É o nosso teatro dos pássaros. O lugar tradicional de apresentação do Pássaro Junino. Aliás, o único espaço historicamente legitimado para essa modalidade de arte cênica, criação do povo do Pará, expressão simbólica da cultura paraense, e a mais significativa expressão popular da arte cênica. O Pássaro Junino é a relevante e original contribuição da cultura paraense ao ciclo junino da cultura brasileira. Um teatro ainda atual e sobrevivente pela dedicação de sua comunidade emocional. Não é um retrato na parede do passado.

A cultura no local é um dos fatores fundamentais para a existência social da cidade e um dos fatores de pertencimento de sua população. Quando esse valor é percebido pela sociedade, a importância de sua preservação está garantida. Mas é necessário que esse reconhecimento venha de uma fração da sociedade capaz de influências e decisão por seu capital econômico e social. Ou, quando no caso da população de baixa-renda, mas de grande capital cultural, ela se mobiliza para garantir seus direitos na história cultural do lugar.

A preservação de bens histórico-culturais decorre de uma consciência social de valor. Qual é a fração da sociedade paraense que tem o Pássaro Junino legitimado como um valor? Não é a classe media e nem a alta, de onde vem a hegemonia político-econômica. Inclusive, essas classes sociais já legitimaram seus espaços: Teatro da Paz, Margarida Schivazzapa, por exemplo, igrejas e museus. Mas a classe popular, que tem o sentimento do pássaro e reconhece seu valor, não tem participação dominante nessa hegemonia cultural sustentada pelo político e econômico. Vive num processo permanente de resistência para garantir seus bens simbólicos, quando seria justo que vivesse no gratuito prazer de cultivá-los.

Quando na preservação predomina o valor econômico material, a possibilidade de transformar o prédio em espaço de negócio e lucro, de um modo geral torna-se mais fácil. Porém, se o que se pretende garantir é o lugar concreto de um bem imaterial, a consciência social e moral não consegue sempre vencer a mentalidade do lucro. É o caso do Teatro de Pássaros em questão, o Teatro São Cristóvão.

Por que esse fato polêmico se torna paradoxal? Porque ele é anacrônico, socialmente injusto, moralmente discutível e atenta contra a mais recente orientação brasileira, através do Ministério da Cultura: preservar o patrimônio imaterial da cultura nacional. Aqui no Pará, para lembrar, luta-se ainda em busca da necessária hegemonia (que deveria ser já consensual) para garantir-se o precioso e necessário tombamento do Carimbó nessa categoria de reconhecimento e valor. Mas a comunidade do Pássaro é menor. Diferentemente do Carimbó, não se tem refletido em produção profissional de artistas de variadas categorias e classes sociais, o que significa um reforço de capital social e econômico à causa do ritmo emblemático do Pará. Mas o Pássaro tem voado sem ter onde pousar. Semelhante ao seu enredo, o incansável caçador que vem perseguindo o Pássaro Junino vem sendo a exclusão, a insensibilidade, o não-reconhecimento de valor e o preconceito.

O tombamento e preservação de monumentos tem sua dificuldade decorrente de: 1)Ignorância e negligência; 2)na cobiça e na fraude; 3)nas idéias equivocadas a respeito do progresso ou das demandas do presente; 4)na busca descabida de embelezamento e renovação, na falta de uma educação estética, ou numa educação estética equivocada.[1] Ao que eu acrescento a especulação e uma equivocada busca de beleza. Não estamos diante de passadismos ou conservadorismos. Mas de estima e consciência moral na educação do espírito. A união entre presente e passado pelo devaneio e o sentido de tempo pertencido. Quantas recordações são deletadas na demolição de monumentos históricos? Eles não são velhos farrapos que o progresso despreze como inadequados aos novos tempos.

A perda de patrimônio cultural é um empobrecimento da vida. Sendo assim, a proteção de monumentos não se deve voltar apenas aos estilos do passado, mas contemplar também suas características locais e históricas, as quais não estamos autorizados a corrigir segundo as regras que nos aprouverem, pois essa correções geralmente destroem aquilo que confere um valor insubstituível até mesmo aos mais modestos monumentos.[2]

Enfim, lembro que na Constituição do Estado há suporte legal para o tombamento de bens culturais do Pará. Na época de sua discussão e elaboração, o deputado relator do capítulo sobre Educação e Cultura, Dr. Zeno Veloso, solicitou-me a indicação de itens para os artigos referentes à cultura nesse capítulo. Analisamos em conjunto a matéria e dentre aqueles que sugeri, logo aceitos por ele e incorporados em sua proposta, está o tombamento de lugares onde aconteceram narrativas míticas, fatos históricos e manifestações relevantes da cultura. O espírito da lei é reconhecer o entrelaçamento necessário do imaterial com o material, do simbólico com o concreto, legitimando o material visível como condição necessária ao simbólico imaterial.

O tombamento do Teatro São Cristóvão, patrimônio material, como lugar tradicional do Pássaro Junino em Belém, patrimônio imaterial nele legitimado, pode ser seguramente receber beneficio dessa legitimidade constitucional.


[1] DVORÁK,Max. Catecismo da preservação de monumentos. TRD. Valéria Alves Esteves Lima. Ateliê Editorial. SP, 2008 p. 67

[2] Idem

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Pranto por Dona Noêmia

Sr. João de Jesus Paes Loureiro.
Venho lhe comunicar através desta o falecimento de
minha mãe Noêmia da Silva Pereira, a quem lhe tinha
como grande amigo.
Sempre que ela precisou o senhor sempre a ajudou.
Obrigado o senhor sempre a incentivou na sua cultura e
na hora da doença grave ela mandou-lhe falar pro senhor
se pudesse ajudar na construção de seu túmulo caso ela viesse
a falecer,
……………………………………………………………………………………….
Ela está enterrada no cemitério Santa Maria,em Carananduba,
Mosqueiro. Caso o senhor não possa ajudar, obrigado por
tudo o que o senhor fez pela minha mãe que Deus
lhe ilumine.
Danúbia da Silva Pereira
10-11-2008″

Quem era essa mulher
feita de rendas
pele noturna felina e querubínica,
aureolada pela lua de sua poesia?

Quem era essa mulher
de sonho e osso
de alma musical e terno canto
com o fervor da bondade em seu olhar?

Quem era essa mulher
feita de carne
na esculpida matéria da cor negra
e rios indígenas correndo em suas veias?

Essa mulher nascida na Ilha do Mosqueiro,
servente aposentada de escola municipal,
mãe de muitos filhos,
mulher a carregar na vida
o esposo paraplégico
invertendo a versão do amor Tambatajá.
Essa mulher
que não cansava de andar a cada dia
na busca desse pão da cada dia
em dias e mais dias e mais dias.

Essa mulher tem um nome,
Noêmia da Silva Pereira,
matriarca da cultura junina do Pará,
que fez da vida o sacrifício de tornar
mais leve pela arte a vida também dura,
das criancinhas, dos humildes e excluídos.
Essa mulher de quem talvez ninguém se lembre,
que não foi consagrada pelo andor da mídia
que não foi coroada de manchetes
que não recomendou políticos ao voto
que não fez propaganda de produtos
que nem sequer desfilou portando modas
que não era reconhecida, anônima, nas ruas
que nem sequer tem um túmulo decente
em que possa repousar também na eternidade.

É a grande autora, encenadora, musicista
de Pássaros Juninos, Bumbás e Pastorinhas
com jovens e crianças no Pará.
Que veio ungida por deuses e caruanas
para arrancar a luz do solo em que pisasse,
para espalhar luar em noite escura.

Noêmia, certamente, um dia foi beber
na fonte da juventude revelada por Virgílio…
No campo das idéias
era mais nova que todos os mais novos.
Ela foi, dentro de si, sempre menina
com a adolescência que a arte propicia
aos que têm na poesia o seu secreto ser.

Vida vida vida…
Por que só tu tens o metro
de medir a tua medida?
Essa mulher, eu sinto, há de ser mais do que tu.
Pois sua medida é maior que tua medida
e sua medida com morte não se mede.
É vida a se medir sempre com vida.

Noêmia.
                  Este poema,
rosa de luto que tomba em tua tumba.
Não há como dizer que não te foste.
E tu te foste, é certo, discreta, ao teu estilo,
Voaste alada e leve nas encantarias
para o terreiro junino das estrelas…

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Acalanto

João de Jesus Paes Loureiro

 

É noite é noite alta
                                e no poema
silabam-se saudades de quem amo.

 

O que faria agora
                              nesta hora
aquela que me ama
                                 e a quem eu quero?

 

Porque não vem
                             aqui comigo
entre  as estrelas
que adornam o colo claro desta noite…
(A noite debruçando em meu silêncio
 a flor da solidão, pálida lua…)

 

Oh! sonho traz-me em tua caravela
aquela que me ama
                                 e a quem adoro…
Tão bela
                Em sua moldura de ternura,
de alma musical
                             e meigo canto.
Então, brisa da noite, oh! brisa  leve
Revoa  sobre o sonho – essa lagoa –
e pousa na sacada onde ela espera
a estrela onde me escondo para vê-la…
Vai a seu leito e roça nos seus lábios
esta flor
               esta  pétala  de beijo.

 

Mas tão de leve que ela não desperte
e mansamente continue sonhando…

 

* * *
Do livro “Altar em Chamas”. Prêmio Nacional de Poesia pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, 1984. Editora Civilização Brasileira/RJ

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Poesia e História

Na época do assassinato, pela polícia militar da ditadura, do estudante Edson Luís Lima Souto, em 28 de março de 1968, escrevi este poema. Declamei-o, pouco tempo depois, na primeira apresentação de Os Menestréis (Música e Poesia), no Teatro do Bancrévea, na lo. de Março, aqui em Belém do Pará. Tive que repetir a leitura a pedido do público que lotava a platéia. No mesmo ano, poucos meses depois, o poema saiu publicado no meu terceiro livro de poemas Epístolas e Baladas, que teve seu lançamento interrompido por ação da polícia militar que, “coincidentemente” fez uma operação repressiva aos subversivos, na área do lançamento, tendo a Livraria da Editora Grafisa sido obrigada a fechar atropeladamente as suas portas e os convidados presentes cuidaram de sair a tempo.
Eis, em seguida o poema, 40 anos depois:

 

Epístola sobre Édson Luís Lima Souto

João de Jesus Paes Loureiro

Poderia ter sido nosso amigo…
Poderia ter sido nosso irmão.
Poderia ter sido nosso filho.
Poderia ter sido.
Poderia ter.
Poderia.
Poderia ser e foi.
Após o seu martírio
transmudou-se
em nosso filho, nosso amigo,
nosso irmão.
O seu nome foi Édson
e poderia ser Antônio, ou Flávio,
ou Bento,
antes que a lâmina da bala
decepasse
a sua agora, irremida infância.
Jornais tornaram-se pássaros noturnos
com tanta letra enlutada.
Uma estrela de platina
sacudiu suas pétalas.
O último samba que desceu do morro
tem uma nota breve
em longo pranto.
O motor da alegria
oxida-se com o tempo.
A linha divisória se acentua.
O poema grela em chão martirizado.
Nada existe sem luta,
nem o amor.
Recusam-se meus versos perfilarem-se
à fila do gatilho,
ou levar _ Cireneu _ ao sacrifício
a cruz das rimas.
É preciso lembrar que a alça de mira
eleva a pontaria a qualquer ombro…
Cada dia atual, dolosamente,
nos ensina a tristeza e seus ofícios.
A porta do Calabouço
pode ser também porta de vida
ou morte.
E foi por esta que o arremessaram
e lhe entregaram a chave compulsória
no íntimo do peito,
– lá onde talvez pousasse
ainda sem asas
o seu primeiro amor…
Queria um prato apenas para todos.
Um prato, por maior que seja,
é bem menos que a vida.

Ele sonhava prato completo
– assim como uma rosa –
para todos
igual…
Não desejava a mesa de ninguém.
Queria a sua e de seus companheiros.
(Comer, talvez, não seja crime)
E deram-lhe um lençol como toalha
e no seu corpo serviram a ceia intolerante.
Foi bem à vista de todos.
A canoa de sua juventude
na jusante quebrou-se contra o dia…
Nunca assinara, sequer, um manifesto.
Todo o povo estremeceu
de um forte rancor gelado.
É muito fácil manejar um tiro.
Um pouco de energia
ou de temor
e vai na ogiva da bala
um satélite de sombra.
Uma vida, porém, é bem difícil.
Embora sempre trama ou emboscada
a vida é linda senhores…
Um rouxinol é mais difícil soltar
do que uma bala,
e a vida não se refaz
como uma pontaria…
O tiro, nunca importa de quem veio,
mas sua responsabilidade.
Uma pétala rolou de minha dália de alegrias.
O rio que tenho n’alma transbordou.
Há um crepúsculo em mim
de tanto sonho enlutado.
Não se aniquila assim
a fome do futuro.
A morte deveria ter pudor dos jovens.
Mas o importante na vida
é não a trair.
A minha geração tem dois caminhos:
martírio e sacrifício!
A fome é a esfinge dessa encruzilhada.
A caneta desfere as balas-verbo
no muro do papel.
Como nos quitar com ele?
Com um manifesto?
Um gesto?
Ou um protesto?
Ou impedindo
que novo dia torne-se mortalha?
Estaremos pagos com o futuro
só com este pranto presente?
Poema: qual o grito que nos salvará?
Uma bandeira o cobre?
Que bandeira?
(“Silêncio Musa,
chora
e chora tanto,
que o pavilhão se lave no teu pranto”)
Ah! Como se cravam em minha língua
silenciosos alfinetes
e os meus dentes mordem
um girassol calado.
O verso vem cavalgando a estrofe
pelos caminhos da página.
As passeatas que levavam
um horizonte de faixas,
dobraram as últimas esquinas…
As manchetes – primadonas agudas –
retiram-se do palco.
Édson Luís Lima Souto
mergulha na legenda!
Inutilmente?
O silêncio passa
_ cisne de luto na lagoa de março.

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