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Archive for the ‘Antipoemas’ Category

[Vídeo] Casas destruídas em Abaetetuba, em leitura de Celso de Alencar

Leitura do blogpoema Casas destruídas em Abaetetuba pelo poeta Celso de Alencar, em vídeo:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ny0mwuGk68o]

 

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Categorias:Antipoemas

Casas destruídas em Abaetetuba

João de Jesus PAES LOUREIRO

Belém, 06 de janeiro de 2014

Soubemos pelos jornais
que o rio Maratauira
em Abaetetuba,
assoreou o barranco
enfraqueceu a terra
e casas naufragaram
como barcos afundando.
Na extremidade da rua em que nasci.

Não foi culpa do rio,
que o rio não tem consciência de seus atos.
Não foi culpa da terra,
que a terra já não decide seu destino.
Não foi a Cobra Grande, que sendo ela
seria por desencantar mundo melhor.
Não foi, portanto, a Boiuna.
A culpa será de quem?

As casas ali foram construídas
pela necessidade urgente de morar.
As pessoas, as famílias,
desde o tempo das cavernas,
precisam de teto e chão para viver.
Na tela movediça da TV
afundam salas, sonhos, oratórios.
Cada olhar, cada voz, cada palavra
enterra seu punhal na consciência,
no coração escondido em nosso peito.

Quem poderá ficar imóvel
ante essa tragédia?
Estendo a mão deste poema
eu peço: “Uma ajuda pelos desvalidos”.
Uma coisa a menos a quem tem tudo,
nunca é de mais.
Uma coisa a mais a quem tem nada,
nunca é de menos.

Categorias:Antipoemas

Natal Ribeirinho

João de Jesus PAES LOUREIRO

Para as crianças da minha terra.

25 de dezembro.
Nasceu na beira do rio
um menino tão bonito
bem como nunca se viu.

Devia ser esperado
pois todos o vinham ver:
O rio de ondas vestido,
com ramos de bem-querer;

O beija-flor no seu bico
trouxe uma estrela; Jasmins
fizerem-lhe alvo leito
rodeado de curumins;

O Boto trouxe um chapéu;
O Uirapuru trouxe o canto;
A Abelha, um favo de mel;
A Uiara bordou-lhe o manto.

De Abaetutuba trouxeram
brinquedos de miriti.
De toda parte chegavam
barcos de peixe a açaí.

Os pais daquele menino
não se cabiam de amor.
Maria cuidava do filho.
José era pescador.

Dizem que nunca nascera
criança tão linda assim,
de sua pele evolava
patixuli e alecrim.

Não sei qual foi o destino
dessa criança, sua vida.
Dizem que andava nas águas
e que era muito querida.

Que os peixes multiplicava
e, às vezes, o pão também.
Que amava os que não têm nada
mas, pelo amor, tudo têm.

Dizem que deu sua vida
vivendo a fazer o bem.
Que um dia ressuscitou
e os anjos diziam amém.

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Antipoema 10: Blues para Amy Winehouse

João de Jesus Paes Loureiro

“Boa noite, meu anjo. Dorme bem.”
Mitch Winehouse, pai de Amy,
no funeral da filha.

Sim, foi um anjo.
Um anjo torto, talvez,
que das bordas do abismo fez do canto
apelo a ecoar nas catedrais do tempo
e não soubemos há tempo compreender.

Amy teimou sonhar
no mundo avesso ao sonho.
Mundo que só queria a seiva de seu canto
de uirapuru com navalhas na garganta.
Queria decidir seu tempo de sonhar.
O sonho em cápsulas de crack custa pouco
e ilude a liberdade possível de uma escolha…
Não compreendeu que na droga
é possível comprar a qualquer hora
o prazer de sonhar…
Mas é um sonho que mata.
Pois a morte não sonha e não tem hora.

Foi uma diva disfarçada de mulher comum.
De uma graça desajeitada.
De uma beleza em desalinho.
De voz ancestral numa garganta eletrônica.
De lábios suculentos e tímido sorriso.
De cabeleira farta como cascata represada num turbante.
De nariz em rude perfil delineado com delicadeza.
De olhos graúdos de vamp e mansidão no olhar.

Uma beleza selvagem debatendo-se
nas jaulas domesticadas do lugar comum.
Beleza gloriosa mas estranha
e reduzida a frangalhos pelo tempo.
Psicografava em tatuagens a sua alma.
Pinturas corporais na pétala da pele
tornaram-se inscrições roídas e arruinadas
pelos vermes invisíveis do crack, cocaína,
heroína, ecstasy e kotamina.
Os piercings tentavam no seu corpo fixar
os dias da mocidade esquecidos no diário.
A pele foi ressecando, sob sóis noturnos,
pendurada no varal dos ossos.
Ela se fez viver morrendo e sepultando-se
em fotos, vídeos, youtubes, espetáculos.
Mas sobre tudo em fotos.
Tumbas sucessivas da beleza em corrosão.
Rosto de deusa grega nos altares de pubs e de alcoóis.
Olhar sonâmbulo de quem queria desperta ver o sonho.
Tantas transgressões, enfim, tanta ternura.
Apenas impecável a voz,
voz uterina soando incandescente
dos abismos do ser.

27 anos.
23 de julho de 2011.
Em Canden, bairro de Londres.
Às 16 horas Amy se morre para sempre.
Vestida unicamente de tatuagens,
testamento no corpo-pergaminho.
No braço esquerdo: “Nunca amarrem minhas asas.”
No braço direito: o signo da sorte é “ferradura”.
No antebraço esquerdo,
uma levíssima “pena” não revela suas penas.
Na barriga, uma ironia sutil: “Olá marinheiro.”
No seio esquerdo: “Blake’s”, quer dizer: “do Blake”,
ofertório de posse ao talvez único amor.
Noutra parte do corpo está escrito: “Menina do papai.”
Declarou, certa vez, que sonhava ter filhos, ser feliz
bem longe do cotidiano em que vivia.

Na internet Amy Winehouse olha-me do outro lado do eterno.
Em silêncio escuto sua voz de tabaco e cristal.
Canta um blues de uma tristeza em pânico e gloriosa:
“Eu disse não, não, não”.
E tenho a sensação de que um anjo,
anjo que um dia agarrou-se numa estrela cadente,
está cantando agora do mais profundo de todos os abismos.
Uma gota de luar rola das pálpebras da lua
e tomba de meus olhos no poema.

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Réquiem para Dorothy Stang

Poema de João de Jesus Paes Loureiro
Publicado originalmente em 06 de maio de 2008

1. Introitus

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Amazônia! Amazônia!

A liberdade dos pássaros voando.
A liberdade dos peixes navegando.
A liberdade das águas desaguando.
A liberdade das árvores crescendo.

Amazônia! Amazônia!

Cristo caminhava sobre as águas.
Rudá revoava nas florestas.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males viveu.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males morreu.

2. Kyrie

Senhor
tem piedade da terra e do homem da terra.
Cristo
tem piedade da terra que mata o homem da terra.
Rudá
tem piedade do homem que morre em defesa da terra.

3. Dias irae / Lacrimosa

Dias de ira virão
quando a floresta
for somente cinzas.
Dias de ira virão
quando a vida na floresta
for somente cinzas.
Assim diz o canto do acauã.
Assim diz a voz de Dorothy.
Dias de ira virão na terra vã.

Ai! Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, Chico Mendes
Pe. Josino, Canuto, Mártires da Terra.
Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, nossa irmã,
que por ela já não canta o acauã.
Tudo acabou.
Tambaramã.
Tudo Acabou.
Tambaramã.

4. Sanctus

Santos! Santos! Santos!
Jesus Cristo! Caruanas! Encantados!

Recorda-te Jesus Piedoso.
Recorda-te Rudá, Deus da Floresta.
Tu que sempre acompanhaste os homens
e mulheres da terra,
por que deixaste só nesse caminho
nossa irmã Dorothy?
Assim foi alvo tão fácil para as balas
seu coração de pássaro sem ninho.
Rio de sangue.
Tamalatiá.
Rio de sangue.
Tamalatiá.

5. Benedictus

Bendita irmã
que vieste em nome do Senhor!
Não pudeste vencer o latifúndio
assassino do homem,
algoz da natureza.
Quem poderá nos salvar?
Quando o dia da justiça há de chegar?

6. Agnus Dei

Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
Tem piedade de nós.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
por que não tiraste da mira do assassino
nossa irmã Dorothy?

Seis balas cravadas em seu peito
só derramaram amor do coração.
Estava só nessa hora e sem defesa
aquela que defendia cada irmão.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
não pudeste impedir
que Dorothy
morresse na mão do algoz.
Tem piedade de nós.

7. Lux aeterna

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Tambores de toda a Amazônia, tocai!
Pela irmã Dorothy Stang, tambores tocai!

Para acordar o coração do mundo
tambores tocai!
Para romper o silêncio do mundo
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!
Por aquela que viveu pela terra sem males
tambores tocai!
Por aquela que morreu pela terra sem males
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!

Dá-lhe, Senhor, repouso perpétuo e sublime,
que ela merece todos os hinos
e que a luz eterna divina a ilumine.

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Antipoema 9

Uma aluna me diz:
Eu seguia de ônibus à ilha do Mosqueiro
o assaltante entra
encosta em minha fronte
o cano do revólver.
– “Passem o celular e dinheiro”.
Outro assaltante aos berros
intimida.
E recolhe o baixo preço
da liquidação de tantas vidas.

Uma freiada brusca bastaria
bastaria o pânico de um grito
o forte ruflar bastaria das asas do destino
e o dedo do medo no gatilho
detonaria a bala.
Mais uma flor de juventude tombaria
numa poça de sangue e impunidade.

E o mundo continuaria a lamber
e a virar as páginas dos dias.
Os ônibus continuariam a levar
passageiros sentados a olhar o pânico
disfarçado na paisagem das ruas.
E o delinqüente continuaria no crack da sarjeta
a jogar o vídeo game da espera de outro ônibus
de outro ônibus e mais outro e de mais outro…

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Antipoema 8

Japão, após o tsunami/2011

Tomba da essência apenas a aparência.
Uma pétala cai do olhar da cerejeira.
Rui o não-ser das pálpebras do ser.

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