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Central Café – ficção e realidade

José Seráfico

O Liberal – 07 de junho de 2011 

Realidade e ficção. Onde começa uma, onde se inicia a outra? A preocupação com a sobrevivência tem levado as pessoas a desdenharem desse que me parece problema existencial dos mais importantes. Não se espere seu deslinde da reflexão e do empenho dos que vêem o mundo e suas coisas passíveis de tradução em tabelas e números. Nem que a ciência chegue algum dia a defini-las com a concretude que nossa curiosidade e necessidade exigem.

Ver a realidade implica perceber as coisas de pontos de vista diferenciados, tão diferentes somos uns dos outros. Daí a propriedade com que os poetas (sobretudo eles) lidam com a questão. Reduzindo a importância de estabelecer fronteiras nítidas entre uma coisa e a outra, é dos bardos que se pode obter satisfatória descrição da própria existência humana – com seus vícios e virtudes, feitos e frustrações, sonhos e cotidiano.

Escrevo isso, para falar (sem autoridade, reconheço-o!) do belo romance com que o poeta João de Jesus Paes Loureiro inicia sua trajetória na prosa. Não que lhe faltem outros trabalhos tecidos fora da linguagem do verso, marcados pela qualidade que ele sempre põe nos textos que assina. O marco inicial, neste caso, é apenas em relação ao caminho do romance, de que Central Café – o tempo submerso nos espelhos é promissor anúncio.

Desde que passei a primeira e superficial vista nas páginas do livro, intuí que se tratava de obra-resgate. O resgate do lugar e da infância do autor; da experiência vivida em fase das mais infelizes da história de que fez (e faz) parte; da vida simples do interior e dos encantos que cercam a vida dos interioranos. Memória? Acerto de contas com a infância e a terra distante? A revisita a locais, sentimentos e emoções? Dúvidas que a primeira folheada mostra texto rico de vidas e saberes – foi o que escrevi.

Ao final da leitura das 380 páginas da obra, constatei não estar errado em minhas prematuras previsões. Lá encontrei, mais que a menção a alguns dos companheiros, muitos ainda hoje amigos do Jesus, fórmula bem dosada de realidade e ficção, reveladoras do mundo interior que nos habita.

Revi nossos companheiros comuns, alguns dos quais agora vivos somente em nossas memórias. Pude sentir-lhes a solidariedade pronta para o mais benéfico e generoso exercício. Porque o autor de Central Café captou com sabedoria o valor desses pequenos gestos, que fazem cada um verdadeiramente ser humano.

Pude saber, num misto de poesia e realidade, fatos e sonhos, boa parte do sofrimento experimentado por Jesus, quando pensar se constituía crime exigente de pesada pena. A pena do poeta, como a de todos os que lidam com as letras, jamais perdoa. Porque, cuidando de registrar o que acontece ou deveria acontecer, o que aconteceu ou ainda acontecerá, acaba por constituir-se fonte do conhecimento humano. Mais rico que as demais formas de conhecimento, porque não dispensa o que o cartesianismo transformado em prisão da idéia e do pensamento geralmente negligencia. De quem esperar texto que lembre nossa pequenez diante da grandeza galática em que nos inserimos (Senti-me como um pequeno rio buscando seu destino de mar), se não de um poeta? A quem mais é dada a capacidade de tecer imagens tão criativas – tinha a impressão de juntar folhas dentro do espelho e no chão?

Romances são bons quando nos fazem ver realidades com as quais jamais nos defrontamos, nem temos a certeza de que um dia defrontaremos. Quando permitem saborear em suas páginas o produto da criatividade de pessoas como nós, às quais a natureza achou de dar o talento que faz a diferença. Melhor ainda, quando ao autor não escapa a oportunidade de enriquecer a vida com a fantasia, a tal ponto que nos sentimos quase forçados a ingres- sar no mundo descrito e a participar de cada acontecimento, real ou fictício, deixado nas páginas lidas.

É assim o primeiro romance de João de Jesus Paes Loureiro.

É mais que isso, porém. Daí o registro que, audaciosamente, não titubeei em escrever, terminada a leitura de Café Central – a realidade submersa nos espelhos. Ei-lo: Preparara-me para ler apenas um romance. Sabia-o tecido por poéticas (haja poesia nelas!) mãos. Conhecia algumas das experiências de vida do autor. Beneficiava-me a estima que nos é recíproca. Encontrei muito mais. Na verdade, acompanhei cada página, cada frase, cada palavra, cada sílaba, cada letra, como quem percorre o roteiro acabado de um bom e emocionante filme. Nem é preciso dizer que poesia e prosa se fundiram, para nos dar um texto que é, em parte, a história de cada um e de muitos de nós. Poucos – talvez nenhum – soubessem dizê-lo com tanto sentimento e arte. O simbolismo do espelho, onipresente na vida e na alma de todos nós, fora e dentro de nosso próprio ser, oculta e revela, reduz e amplifica, insinua e distorce sentimen- tos e pensamentos, fazendo de cada um de nós uma das muitas encantarias que povoam nossos abismos pessoais. Ao fi- nal, penso ver confirmadas as hipóteses registradas após o primeiro folhear do volume. Este livro-filme não pode esperar mais, para ocupar as telas da assim chamada sétima arte.

Obrigado, Jesus.

José Seráfico é professor da Universidade Federal do Amazonas.

Mais informações sobre Café Central – o tempo submerso nos espelhos.

Categorias:Imprensa

Réquiem para Dorothy Stang

Poema de João de Jesus Paes Loureiro
Publicado originalmente em 06 de maio de 2008

1. Introitus

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Amazônia! Amazônia!

A liberdade dos pássaros voando.
A liberdade dos peixes navegando.
A liberdade das águas desaguando.
A liberdade das árvores crescendo.

Amazônia! Amazônia!

Cristo caminhava sobre as águas.
Rudá revoava nas florestas.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males viveu.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males morreu.

2. Kyrie

Senhor
tem piedade da terra e do homem da terra.
Cristo
tem piedade da terra que mata o homem da terra.
Rudá
tem piedade do homem que morre em defesa da terra.

3. Dias irae / Lacrimosa

Dias de ira virão
quando a floresta
for somente cinzas.
Dias de ira virão
quando a vida na floresta
for somente cinzas.
Assim diz o canto do acauã.
Assim diz a voz de Dorothy.
Dias de ira virão na terra vã.

Ai! Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, Chico Mendes
Pe. Josino, Canuto, Mártires da Terra.
Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, nossa irmã,
que por ela já não canta o acauã.
Tudo acabou.
Tambaramã.
Tudo Acabou.
Tambaramã.

4. Sanctus

Santos! Santos! Santos!
Jesus Cristo! Caruanas! Encantados!

Recorda-te Jesus Piedoso.
Recorda-te Rudá, Deus da Floresta.
Tu que sempre acompanhaste os homens
e mulheres da terra,
por que deixaste só nesse caminho
nossa irmã Dorothy?
Assim foi alvo tão fácil para as balas
seu coração de pássaro sem ninho.
Rio de sangue.
Tamalatiá.
Rio de sangue.
Tamalatiá.

5. Benedictus

Bendita irmã
que vieste em nome do Senhor!
Não pudeste vencer o latifúndio
assassino do homem,
algoz da natureza.
Quem poderá nos salvar?
Quando o dia da justiça há de chegar?

6. Agnus Dei

Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
Tem piedade de nós.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
por que não tiraste da mira do assassino
nossa irmã Dorothy?

Seis balas cravadas em seu peito
só derramaram amor do coração.
Estava só nessa hora e sem defesa
aquela que defendia cada irmão.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
não pudeste impedir
que Dorothy
morresse na mão do algoz.
Tem piedade de nós.

7. Lux aeterna

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Tambores de toda a Amazônia, tocai!
Pela irmã Dorothy Stang, tambores tocai!

Para acordar o coração do mundo
tambores tocai!
Para romper o silêncio do mundo
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!
Por aquela que viveu pela terra sem males
tambores tocai!
Por aquela que morreu pela terra sem males
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!

Dá-lhe, Senhor, repouso perpétuo e sublime,
que ela merece todos os hinos
e que a luz eterna divina a ilumine.

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