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Archive for novembro \15\UTC 2008

Pranto por Dona Noêmia

Sr. João de Jesus Paes Loureiro.
Venho lhe comunicar através desta o falecimento de
minha mãe Noêmia da Silva Pereira, a quem lhe tinha
como grande amigo.
Sempre que ela precisou o senhor sempre a ajudou.
Obrigado o senhor sempre a incentivou na sua cultura e
na hora da doença grave ela mandou-lhe falar pro senhor
se pudesse ajudar na construção de seu túmulo caso ela viesse
a falecer,
……………………………………………………………………………………….
Ela está enterrada no cemitério Santa Maria,em Carananduba,
Mosqueiro. Caso o senhor não possa ajudar, obrigado por
tudo o que o senhor fez pela minha mãe que Deus
lhe ilumine.
Danúbia da Silva Pereira
10-11-2008″

Quem era essa mulher
feita de rendas
pele noturna felina e querubínica,
aureolada pela lua de sua poesia?

Quem era essa mulher
de sonho e osso
de alma musical e terno canto
com o fervor da bondade em seu olhar?

Quem era essa mulher
feita de carne
na esculpida matéria da cor negra
e rios indígenas correndo em suas veias?

Essa mulher nascida na Ilha do Mosqueiro,
servente aposentada de escola municipal,
mãe de muitos filhos,
mulher a carregar na vida
o esposo paraplégico
invertendo a versão do amor Tambatajá.
Essa mulher
que não cansava de andar a cada dia
na busca desse pão da cada dia
em dias e mais dias e mais dias.

Essa mulher tem um nome,
Noêmia da Silva Pereira,
matriarca da cultura junina do Pará,
que fez da vida o sacrifício de tornar
mais leve pela arte a vida também dura,
das criancinhas, dos humildes e excluídos.
Essa mulher de quem talvez ninguém se lembre,
que não foi consagrada pelo andor da mídia
que não foi coroada de manchetes
que não recomendou políticos ao voto
que não fez propaganda de produtos
que nem sequer desfilou portando modas
que não era reconhecida, anônima, nas ruas
que nem sequer tem um túmulo decente
em que possa repousar também na eternidade.

É a grande autora, encenadora, musicista
de Pássaros Juninos, Bumbás e Pastorinhas
com jovens e crianças no Pará.
Que veio ungida por deuses e caruanas
para arrancar a luz do solo em que pisasse,
para espalhar luar em noite escura.

Noêmia, certamente, um dia foi beber
na fonte da juventude revelada por Virgílio…
No campo das idéias
era mais nova que todos os mais novos.
Ela foi, dentro de si, sempre menina
com a adolescência que a arte propicia
aos que têm na poesia o seu secreto ser.

Vida vida vida…
Por que só tu tens o metro
de medir a tua medida?
Essa mulher, eu sinto, há de ser mais do que tu.
Pois sua medida é maior que tua medida
e sua medida com morte não se mede.
É vida a se medir sempre com vida.

Noêmia.
                  Este poema,
rosa de luto que tomba em tua tumba.
Não há como dizer que não te foste.
E tu te foste, é certo, discreta, ao teu estilo,
Voaste alada e leve nas encantarias
para o terreiro junino das estrelas…

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