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Archive for março \28\UTC 2008

Poesia e História

Na época do assassinato, pela polícia militar da ditadura, do estudante Edson Luís Lima Souto, em 28 de março de 1968, escrevi este poema. Declamei-o, pouco tempo depois, na primeira apresentação de Os Menestréis (Música e Poesia), no Teatro do Bancrévea, na lo. de Março, aqui em Belém do Pará. Tive que repetir a leitura a pedido do público que lotava a platéia. No mesmo ano, poucos meses depois, o poema saiu publicado no meu terceiro livro de poemas Epístolas e Baladas, que teve seu lançamento interrompido por ação da polícia militar que, “coincidentemente” fez uma operação repressiva aos subversivos, na área do lançamento, tendo a Livraria da Editora Grafisa sido obrigada a fechar atropeladamente as suas portas e os convidados presentes cuidaram de sair a tempo.
Eis, em seguida o poema, 40 anos depois:

 

Epístola sobre Édson Luís Lima Souto

João de Jesus Paes Loureiro

Poderia ter sido nosso amigo…
Poderia ter sido nosso irmão.
Poderia ter sido nosso filho.
Poderia ter sido.
Poderia ter.
Poderia.
Poderia ser e foi.
Após o seu martírio
transmudou-se
em nosso filho, nosso amigo,
nosso irmão.
O seu nome foi Édson
e poderia ser Antônio, ou Flávio,
ou Bento,
antes que a lâmina da bala
decepasse
a sua agora, irremida infância.
Jornais tornaram-se pássaros noturnos
com tanta letra enlutada.
Uma estrela de platina
sacudiu suas pétalas.
O último samba que desceu do morro
tem uma nota breve
em longo pranto.
O motor da alegria
oxida-se com o tempo.
A linha divisória se acentua.
O poema grela em chão martirizado.
Nada existe sem luta,
nem o amor.
Recusam-se meus versos perfilarem-se
à fila do gatilho,
ou levar _ Cireneu _ ao sacrifício
a cruz das rimas.
É preciso lembrar que a alça de mira
eleva a pontaria a qualquer ombro…
Cada dia atual, dolosamente,
nos ensina a tristeza e seus ofícios.
A porta do Calabouço
pode ser também porta de vida
ou morte.
E foi por esta que o arremessaram
e lhe entregaram a chave compulsória
no íntimo do peito,
– lá onde talvez pousasse
ainda sem asas
o seu primeiro amor…
Queria um prato apenas para todos.
Um prato, por maior que seja,
é bem menos que a vida.

Ele sonhava prato completo
– assim como uma rosa –
para todos
igual…
Não desejava a mesa de ninguém.
Queria a sua e de seus companheiros.
(Comer, talvez, não seja crime)
E deram-lhe um lençol como toalha
e no seu corpo serviram a ceia intolerante.
Foi bem à vista de todos.
A canoa de sua juventude
na jusante quebrou-se contra o dia…
Nunca assinara, sequer, um manifesto.
Todo o povo estremeceu
de um forte rancor gelado.
É muito fácil manejar um tiro.
Um pouco de energia
ou de temor
e vai na ogiva da bala
um satélite de sombra.
Uma vida, porém, é bem difícil.
Embora sempre trama ou emboscada
a vida é linda senhores…
Um rouxinol é mais difícil soltar
do que uma bala,
e a vida não se refaz
como uma pontaria…
O tiro, nunca importa de quem veio,
mas sua responsabilidade.
Uma pétala rolou de minha dália de alegrias.
O rio que tenho n’alma transbordou.
Há um crepúsculo em mim
de tanto sonho enlutado.
Não se aniquila assim
a fome do futuro.
A morte deveria ter pudor dos jovens.
Mas o importante na vida
é não a trair.
A minha geração tem dois caminhos:
martírio e sacrifício!
A fome é a esfinge dessa encruzilhada.
A caneta desfere as balas-verbo
no muro do papel.
Como nos quitar com ele?
Com um manifesto?
Um gesto?
Ou um protesto?
Ou impedindo
que novo dia torne-se mortalha?
Estaremos pagos com o futuro
só com este pranto presente?
Poema: qual o grito que nos salvará?
Uma bandeira o cobre?
Que bandeira?
(“Silêncio Musa,
chora
e chora tanto,
que o pavilhão se lave no teu pranto”)
Ah! Como se cravam em minha língua
silenciosos alfinetes
e os meus dentes mordem
um girassol calado.
O verso vem cavalgando a estrofe
pelos caminhos da página.
As passeatas que levavam
um horizonte de faixas,
dobraram as últimas esquinas…
As manchetes – primadonas agudas –
retiram-se do palco.
Édson Luís Lima Souto
mergulha na legenda!
Inutilmente?
O silêncio passa
_ cisne de luto na lagoa de março.

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