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Archive for janeiro \12\UTC 2008

Antipoema 3

Na noite em que meu filho Pedro e sua mulher Roberta foram assaltados nas horas noturnas de uma drogaria, o oficial do Comando de Combate ao Crime Organizado em serviço, de colete à prova de balas, revólver na cintura, metralhadora na mão, pente de munição cruzando o peito, olhou-me e disse: _ “Poeta! Sei que você é o poeta. Escreva sobre isto. Faça um poema contra a violência que assola nossa cidade. Escreva!”

O Assalto

João de Jesus Paes Loureiro

A caneta em minha mão está sem balas.
A caneta não contém bomba de gás e nem granada.
Nem tinta lacrimogênica.
Minha mão com a caneta entre seus dedos
não tem a munição para enfrentar
o assaltante que tem armas na mão.
A não ser na metáfora
a caneta não é fuzil, nem escopeta,
pois só atira palavras no papel.

Aquele militar tinha nas mãos
todas as armas usadas contra o crime
e de dentro de um colete contra balas
olhou-me tenso e disse:
_ “Poeta, escreva um poema contra isso.
Faça um poema contra o crime. Escreva.”

Aquele homem, armado até os dentes, crê na poesia.
Aquele homem crê na paz.
Aquele homem crê.

Eu via meu filho na imagem da TV
enquanto perpetrava-se a violência delinqüente.
O assaltante a segurar-lhe o braço erguido
e apontando-lhe uma arma na cabeça.
O rosto de Pedro era um pânico de mármore.
Aquele rosto que plantei em sua mãe
como semente de amor
estava lívido
como quem olha a outra margem do rio
da última viagem.
A mão armada do assaltante ainda jovem
segurava o revólver com bala no gatilho,
cano encostado nas têmporas de Pedro
e poderia, num segundo,
matar aquela vida, nossa vida também.
Foi nesse instante que o policial
pateticamente, me disse:
_ “Poeta. Faça um poema contra isso”.
(E os poetas apenas do inefável da palavra
protegidos na armadura do hermetismo
ouvindo isto
talvez escondam irônico sorriso
atrás de seu leque de seda e forma pura…)

E o tempo -tempo a tempo- foi passando
sem que eu quisesse o poema,
o poema que também não me queria.
Aquela mão do assaltante
apontava contra mim sua arma trêmula,
contra a poesia no meu coração.
A bala no gatilho calava-me o verso na garganta.
O poema vestia colete de silêncio
renegando rimas e fonemas.
Aquele cano de calibre 38 me anulava,
pois a caneta não foi feita contra ele.
Contra ele foi forjada a arma policial.

Entre essas duas armas,
a arma que me fazia inútil face ao poema
e a arma que me pedia as balas da poesia,
minha mão assumiu esta caneta
e desferiu fonemas e palavras e metáforas
no peito alvo da página
como a cravar alfinetes num fetiche
de um desafeto presente embora ausente…

Qual é a pontaria que está, olho escondido
por trás da arma vera do assaltante?
A fome? A droga? O consumismo?
O desemprego? O desamor? O desespero?
Por que rosnava tanto ódio aquele moço,
contra quem nunca viu
e nem sequer odeia?
Por que seria capaz de matar
aquele que poderia ser seu companheiro,
de escola ou de pelada?
Por que matar quem nem sequer conhece?
Que vida triste
fê-lo capaz de voltar-se contra a vida?
Talvez por ver-se condenado à morte a cada instante
já não veja na vida um bem durável…
Não veja vida na vida…
Um tênis pela morte à vista
é o preço de consumo do excluído?
Na certidão de batismo do assaltante
não foi escrito: “Nasceu para roubar.”
“Nasceu para matar.”
Por que escolheu essa dura profissão
de túmulos cavar a cada dia?
Em que agência de emprego marginal
tirou a carteira de trabalho de assaltante?

Olhei a minha mão tendo entre os dedos
a pena da caneta,
tão fragilzinha em face a tantas penas
e tive pena de mim, de nós, de todos.
Talvez a mão que escreve este poema tosco,
para vingar as penas de meu filho
naquele triste momento que a TV tornou eterno,
trocasse esta caneta por alguma arma de aço
e matasse o assassino caso ele matasse
aquele filho, luz em nossa vida.
O assaltante também não saberia
porque teria morrido…
E outros assaltantes continuariam seus assaltos
e outros pais continuariam
vingando-se no ódio espelho de ódios.

A minha mão talvez nem conseguisse mais
largar aquela arma
e empunhar entre os dedos a caneta de fazer poemas.
E ninguém veria nisso algum exemplo
que pudesse arrancar o ódio do mundo.

Então eu compreendi aquele homem
armado até os dentes
e dentro de um colete avesso às balas,
quando entre revólveres me disse:
“Poeta escreva um poema contra essa violência.”

Aqui está o poema.
Versos veias abertas do meu ser.
Levanto-me leve e alado.
Deixo no colo do poema a caneta vazia.
Mas na hora da poesia sempre estarei aqui.
Podem contar comigo.

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Antipoema 2

Adolescente no cárcere

João de  Jesus Paes Loureiro

A adolescente foi encarcerada
em uma cela destinada a qualquer crime
nos cárceres do Pará.
Foi lançada às feras numa jaula.

Lançada pelo esgoto social
no banquete de ratos e de répteis.
Como no velho Coliseu romano
os condenados
eram lançados a tigres e leões,
como guerreiros inimigos
eram dispostos à fome canibal,
como se lança uma vaca
à sanha devoradora das piranhas,
como uma flor abandonada
aos vendavais insaciáveis da injustiça,
como um monte de carne que se atira
aos lobos da caverna.

A menor foi humilhada, coagida e estuprada
no chão da cela e da miséria humana.
Em que mundo vivemos quando o homem
se mantém sempre mais lobo do homem?

E tudo aconteceu em Abaetetuba,
minha terra,
terra que adoçou a minha alma
com seus canaviais e verdes sonhos.
Abaetetuba que me fez poeta.
Rosa de amor aberta no meu peito.
Por que essa flor deixou que tão secreto espinho
rasgasse-me o coração
que agora sangra?…

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