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Antipoema 1

dezembro 29, 2007

Antipoema

João de Jesus Paes Loureiro

O que fazer da poesia?
Qual a poesia possível
numa época impossível de poesia?

A poesia é necessária.
Eu sei completamente o quanto é necessária
enquanto faço o poema
e o poema me faz.

Quando o poema se completa
e me olha das palavras,
já não sei mais o que um poema é
e o que é a poesia.
Só enquanto faço um poema
sei o que ele é
e o que é a poesia.

Mas, cada minuto que passa,
sinto que a poesia é necessária.
Seja na forma de poemas
ou mesmo em seu avesso, o antipoema.

Antipoema é mergulhar a mão em lodo e lama
para no fundo colher
uma última flor do Lácio oculta e bela.

Antipoema.
Poesia avessa, contra, suja por seu tema
mas, ainda assim, poesia.
Menor abandonada em suas estrofes,
adolescência em cárcere privado nas metáforas,
menina de rua nos versos descarnados,
sílabas de crack,
poluição de métricas do ar,
ozônio perfurado por fonemas,
camadas de ternura sobre a lama,
rimas sem ar.
Antipoema.

Sinto que a poesia é necessária.
Ah! Esse mistério gozozo da palavra
que a si mesma celebra
e se consagra.
Poesia que nem sempre o mundo faz brotar
na palma da mão do poeta.
Mas ainda que se negue se afirmando,
ainda que na forma de antipoema,
a poesia é necessária.
A poesia é necessária.
A poesia é necessária.

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