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Archive for dezembro \29\UTC 2007

Antipoema 1

Antipoema

João de Jesus Paes Loureiro

O que fazer da poesia?
Qual a poesia possível
numa época impossível de poesia?

A poesia é necessária.
Eu sei completamente o quanto é necessária
enquanto faço o poema
e o poema me faz.

Quando o poema se completa
e me olha das palavras,
já não sei mais o que um poema é
e o que é a poesia.
Só enquanto faço um poema
sei o que ele é
e o que é a poesia.

Mas, cada minuto que passa,
sinto que a poesia é necessária.
Seja na forma de poemas
ou mesmo em seu avesso, o antipoema.

Antipoema é mergulhar a mão em lodo e lama
para no fundo colher
uma última flor do Lácio oculta e bela.

Antipoema.
Poesia avessa, contra, suja por seu tema
mas, ainda assim, poesia.
Menor abandonada em suas estrofes,
adolescência em cárcere privado nas metáforas,
menina de rua nos versos descarnados,
sílabas de crack,
poluição de métricas do ar,
ozônio perfurado por fonemas,
camadas de ternura sobre a lama,
rimas sem ar.
Antipoema.

Sinto que a poesia é necessária.
Ah! Esse mistério gozozo da palavra
que a si mesma celebra
e se consagra.
Poesia que nem sempre o mundo faz brotar
na palma da mão do poeta.
Mas ainda que se negue se afirmando,
ainda que na forma de antipoema,
a poesia é necessária.
A poesia é necessária.
A poesia é necessária.

Categorias:Antipoemas

O Viajante das Lendas Amazônicas

O compositor russo Sergei Firsanov e eu compusemos a ópera infantil O VIAJANTE DAS LENDAS AMAZÔNICAS. Sua estréia mundial foi realizada sob coordenação e produção da Fundação Amazônica de Música (dirigida pela musicóloga e professora Glória Caputo) e Musicart Produções (coordenada pela professora de música Selma Chaves), dentro do programa Vale Música Belém. Encenada inicialmente no Teatro da Paz (Belém do Pará) e no Palácio das Artes (Belo Horizonte) em 2007, prevendo-se para 2008 novas encenações em Belém, mais Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.

Representação, coro e orquestra: 130 alunos entre 7 a 15 anos.

“Mãe Natureza”: Dione Colares-Soprano.

Borboleta Azul: Ana Carolina-Bailarina.

Índio: Manoel Aires.

Índia: Márcia Lima.

Velho Taracutê: Pauli Banhos.

Curumim: Jefferson Castro da Silva.

Regência: Miguel Campos Neto.

Direção cênica: Ester Sá.

Cenografia: Nando Lima.

Iluminação: Patrícia Gondim.

Coreografia: Jaime Amaral.

Caract. Maquiagem: Nelson Borges.

Filmagem e edição: Jorane Castro.

Figurinos: Maurício Franco.

Regente/Coro: Elizery Sarmento.

Vídeo de animação: Alexandro Costa e Sandra Carvalho.

Confecção de bonecos: Anibal Pacha.

Criação dos desenhos: Alunos do Vale Música.

Digitalização e imagens para vídeo: André Mardock.

Poema: João de Jesus PAES LOUREIRO

Música: Sergei Firsanov

1º Ato

Manegundes, canoeiro
embarca na igarité.
Vai da ilha da Pacoca
na direção de Abaeté

Um Curumim falador
pediu para ir também:
– Me leve, para onde for
que de lá vou pra Belém.

– Eu levo, se na viagem
muitas histórias contares,
mas te abandono na margem
na hora em que te calares.

E o Curumim, sem mais nem,
pulou na canoa também.

Logo no início da viagem,
com pena do Curumim,
uma Borboleta Azul
pousou no seu ombro e assim
falando-lhe ao pé do ouvido
começou a relembrá-lo
de mil histórias sem fim.

– Eu sou a Borboleta azul
e vou contar para ti
uma história tão bonita
uma história tão bonita
que o Canoeiro escutando,
logo se vai comover.
E nessa história sonhando
faz teu sonho acontecer.

Manegundes remava remava remava
O Curumim falava falava falava
A igarité navegava vagava vagava

Passa uma garça voando
passa guará, juruti
passa andorinha, marreca
passa urubu, saracura
passa ariramba, gavião
pássaros pássaros vem
pássaros pássaros vão

E o Curumim repetia
o que a Borboleta Azul lhe dizia.

– Na floresta da Amazônia
há um pássaro encantado,
que se chama Uirapuru
e tem um lindo trinado.
E quanto mais ele canta
seu canto, que é o mais bonito
dos cantos que ali havia,
faz a floresta calar,
só para ouvi-lo cantar.
A floresta silencia
só para ouvi-lo cantar.
Tudo em redor silencia
para escutar esse canto,
o mais bonito que há.

Quando esse canto ressoa
tudo em redor silencia
tudo em redor silencia.
O vento sopra leve levemente
as onças vão calando lentamente
a lua apaga os raios calmamente
as folhas vão caindo ternamente
as horas vão passando humildemente
o rio se vai pro mar serenamente.

Só para ouvir esse canto
da ave da encantaria
a própria voz do silêncio
na floresta silencia.

Manegundes remava remava remava
O Curumim falava falava falava
A igarité navegava vagava vagava

– Gostei dessa bela história
que tem bonita mensagem,
agora me conta outra
se queres seguir viagem.

Passa barca, passa nuvem
passa capim, canarana
marapatá, mururé
patixuli, periantã
maracujá, fruta-pão
ondas e ondas que vêm
ondas e ondas que vão.

A borboleta, baixinho,
conta outra história ao menino
E o Curumim repetia
o que a Borboleta Azul lhe dizia.

(- Eu sou a Borboleta azul
e vou contar para ti
uma história tão bonita
uma história tão bonita
que o Canoeiro,escutando,
logo se vai comover.
E nessa história sonhando
faz teu sonho acontecer. )

– Antigamente, não havia mosquitos
carapanãs, nem moscas, nem mutucas
nem cabas, nem pulgas, maruins.
O velho Taracutê acendera uma fogueira.
As chamas pareciam línguas vivas.
Dos tições explodiam constelações.

2º Ato

O velho, vez por outra, cochilava
e o fogo, pouco a pouco se apagava.
As línguas do fogo recolhiam-se
dentro da boca das cinzas.
As brasas logo murchas
de vermelhas que eram
ficam negras.

O velho Taracutê sentindo frio
logo atiçar o fogo procurou.
Com seu abano de palha, logo-logo
abanou, abanou, abanou.
Mas, de repente,
das cinzas foram súbito voando
moscas e mosquitos, maruins
carapanãs, pulgas, murissocas
que começaram a perseguir
o velho Taracutê
que pulava de tanto se coçar.

E todo mundo, todo mundo se coçava
se coçava aqui, coçava lá
coçava mais aqui, mais acolá
e sem poder parar
todo mundo pulava e rebolava
de tanto se coçar.
Como um bando de macacos assanhados
todo mundo pulava e rebolava
de tanto se coçar!

Manegundes remava remava remava
O Curumim falava falava falava
A igarité navegava vagava vagava.

– Gostei, também dessa história
história bem divertida.
Se não contares mais outra
vais ter que cuidar da vida.

Passa rio, passa margem
passa boi, passa boiada
passa vela, passa vento
passa riso, passa dor
passa noite, madrugada
passa vida fica amor
passa amor não fica nada.

– Tu cantas como a cigarra
trabalho como a formiga.
Se não contares mais outra
vais ter que cuidar da vida…

(- Eu sou a Borboleta azul
e vou contar para ti
uma história tão bonita
uma história tão bonita
que o Canoeiro,escutando,
logo se vai comover.
E nessa história sonhando
faz teu sonho acontecer.)

3º Ato

– Uma índia macuxi
mais linda que já se viu,
com pinturas cobrindo a pele nua,
fugiu com o belo índio taulipang
amado seu.
Foram pra Serra da Lua.

E desde então
nunca mais se separaram.
Como um só corpo de amor
nunca mais se separaram.
Quando ele ia pescar, ela ia também.
Quando ela ia nadar, ele ia também.
Quando ele ia caçar, ela ia também.
Quando ela ia dormir, ele ia também.

Nove meses depois
o filho que nasceu
nasceu sem vida,
que nem se ouviu chorar.
E a índia macuxi
depois de tanta lida
não pode mais andar
cheia de dor.
E já que a linda índia
não andava,
o índio
sem poder viver sem ela
e sem nunca se cansar,
pra toda parte a levava
nos seus braços.
Para onde quer que fosse
seja qual fosse o lugar,
a sua amada nos braços
o índio passou a levar.
Até que juntos morreram
e juntos foram enterrados,
tão juntos como viveram
na morte não separados.

Foi então que de seus corpos
nasceu uma nova planta
de nome Tambatajá.
Nasceu a planta do amor,
do amor que morre de amar.
Desse amor da vida inteira
que nem a morte matou.
Esse amor que renasceu
na hora em que se encantou
no verde Tambatajá.
Mostrando que não morreu
o amor dos índios amados
que nesse Tambatajá
estão pra sempre encantados.

Manegundes remava remava remava
O Curumim falava falava falava
A igarité navegava vagava vagava

Epílogo

Amazônia! Ai! Amazônia!
Floresta, rio e calor
coração verde pulsando
no peito do meu amor.

Amazônia pindorama
canarana periantã
marapatá caviana
guaimiaba ajuricaba
malária febre-terçã
igarapé pororoca
uxi, tupinambarana
macuxi tupinambá
boiúna boto acauã
carimbó tambaramã
marambiré siriá

Amazônia, quem te ama?
Terra sem males, cunhã.
Deus que te guarde tão bela,
com anjos e caruanas
e a proteção de Tupã!
Amazônia, quem te ama?
Nossa terra! Nossa mãe!
Nós, as crianças, te amamos.
Nós te amamos.
Linda terra. Nossa mãe.
Nós te amamos. Nossa mãe!
Nossa terra.
Nós as crianças te amamos sempre!
Nossa mãe! Terra sem males!
Tu és grande e bela
Amazônia nossa.
Tu és nossa terra e mãe…
Amazônia!

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