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Um Certo Professor João

outubro 3, 2007

Luciana Moraes

“Eu não me programei para nada
a não ser para ti.
Para estar junto a ti.
Para estar frente a ti
e te olhar com um misto
de curiosidade e fascinação.
Tu és, agora, este poema a se fazer
a obra-prima sonhada pelo poeta
a maravilhosa coreografia de um acaso
o sensualíssimo cheiro de sal e azul
que vem do mar.”
(Bilhete – Paes Loureiro)

O beijoBelém vive dias de atividades culturais intensos: Circuito Cultural Banco do Brasil, Feira Panamazônica do Livro, Círio de Nazaré. Já a cultura popular paraense – aquilo que antes chamávamos de folclore – não vive dias tão áureos assim.

Conhecida como a terra do já teve, a cidade das mangueiras e o Estado que ela representa já tiveram um Secretário de Cultura genuinamente preocupado com a preservação e valorização de nossa cultura popular: João de Jesus Paes Loureiro.

Quando se vai à casa do professor Paes Loureiro se é muito bem recebido logo no hall do elevador por uma réplica da tela O beijo, de Klimt – indício primeiro do bom gosto do qual ele vive cercado.

Todo de branco ele veio. Iluminado como o Sol que invadia a sala pelas janelas do seu apartamento repleto de quadros, fotos, gatos, flores amazônicas e brinquedos de miriti – tudo harmoniosamente encaixado.

O tempo todo eu o chamei de professor, fingindo que ele era mesmo só um professor, pra que a entrevista rolasse sem que eu me intimidasse muito. Na verdade, Paes Loureiro é bem mais do que exclusivamente um professor de Estética, História da Arte e Cultura Amazônica da Universidade Federal do Pará.

Mestre em Teoria da Literatura e Semiótica pela PUC/UNICAMP, São Paulo, e Doutor em Sociologia da Cultura pela Sorbonne, Paris, França, Paes Loureiro também é poeta, pesquisador e blogueiro. Impossível não olhá-lo com um misto de curiosidade e fascinação, estejamos programados ou não para isto.

1) Qual a situação atual da cultura popular paraense?
A cultura popular do Estado do Pará vive um período de diminuição de apoio e há dificuldade em manter os grupos organizados. Mas há resistência daqueles que se mantém pela força da tradição, contudo em um número cada vez menor. Não tem tido apoio e legitimação nem pelo sistema de ensino nem pelos projetos governamentais ou públicos. Como é uma produção que vem de camadas pobres da população, a falta desse apoio e legitimação acaba sendo extremamente danosa. O que salva é que as raízes dessa cultura estão cravadas no coração do povo e por isso resistem.

 

2) Professor, há um mês atrás, em entrevista sobre cultura popular com o também professor Paulo Nunes, ele falou com muito saudosismo no projeto Preamar, criado pelo senhor quando foi Secretário de Cultura do Estado do Pará. Em que consistia o projeto e por que ele acabou?
O projeto Preamar era uma estratégia de apoio, valorização e abertura de espaços à exibição dos espetáculos de cultura popular. Se desenrolava ao longo do ano todo, tendo como época culminante o mês de junho, no CENTUR, que era o centro cultural do Estado e oferecia os mais diferentes espaços cênicos para as apresentações.

O Preamar foi criado em 1986 e durou até 1990, quando fui Secretário de Cultura do Estado do Governo Hélio Gueiros. Quando entrou para a Secretaria o Dr. Guilherme de La Penha – no Governo Jader Barbalho – o projeto foi desativado e a partir daí todos os benefícios de fortalecimento e ampliação do número de grupos populares começou a entrar em declínio.

Para dar um exemplo, grupos de pássaro junino que chegamos a estimular e fortalecer foram 70 só em Belém. Esse número foi diminuindo nos anos seguintes a nossa gestão ao ponto de quase desaparecer, restando apenas poucos grupos heroicamente resistindo. Durante o Preamar, exibiam-se em Belém grupos da cultura popular paraense das mais diversas modalidades e de quase todos os municípios.

3) Se o senhor fosse Secretário de Cultura do Estado do Pará hoje, o que retomaria, o que manteria e o que mudaria?
Retomaria o projeto Preamar porque é um projeto que beneficiava o Estado inteiro, valorizando a sua diversidade cultural e artística. Retomaria também o planejamento cultural compartilhado por todos os municípios e que também foi desativado na gestão seguinte a minha.

Manteria da atualidade os espetáculos de música erudita, a programação de apoio aos editais artísticos, ampliando, todavia o seu alcance. Procuraria trabalhar com todas as artes de qualquer modalidade, favorecendo as técnicas, as formas e a dimensão estética atuais na expressão artística, procurando fortalecer a nossa originalidade, beneficiando-nos com as contribuições universais da arte atual. A Feira Panamazônica do Livro seria um programa que eu manteria também, assim como as homenagens que são feitas aos países a cada ano.

O que eu não faria era manter todas essas atividades dependentes do orçamento do Estado, mas lutaria para que elas tivessem autonomia e condições garantidas permanentemente de recursos financeiros para continuarem existindo independentemente do Estado; pra que ficassem tão fortes que não dependessem mais da decisão do poder público que sempre varia nas suas prioridades e intenções.

Aconteceu que, como passei apenas quatro anos na Secretaria, investi todas as forças primeiro na criação do processo, que era a estratégia certa na época, mas ele não teve continuidade nas outras gestões.

4) O senhor falou na Feira Panamazônica do Livro. Como vai ser a sua participação na feira este ano, que tem como país homenageado Cuba?
Este ano eu participo da Feira Panamazônica do Livro em um recital com o título “O poeta e seu canto: poesia e música”, tendo como convidados especiais Salomão Habib, Dayse Addário, Ziza Padilha, Lu Guedes e Trio Manari. Todas as composições são de minha autoria neste espetáculo, que ocorrerá dia 06 de outubro, sábado, às 17 horas. Em uma parte destacada, faremos uma homenagem à Cuba, com poemas e canções.

5) O senhor tem um blog desde fevereiro de 2007 e nele alguns de seus artigos, fotos e poemas estão ao alcance de todos. Como surgiu esta idéia?
A minha idéia de criar um blog e entrar para o Orkut nasceu de um desejo de dialogar mais com meus alunos e com as pessoas, participando de um tipo de meio e linguagem que permite um elo informal, dinâmico e no gosto de todo mundo. Foi uma busca de canais de comunicação com a juventude e de experimentar um meio fascinante de interação e afetividade cósmica.

Quem me orienta no blog e a quem eu chamo de meu “bloguru” é o meu sobrinho Pedro Henryque, que já foi até personagem de um documentário sobre essa comunicação de Internet, realizado pela Jorane Castro.

Luciana Moraes é estudante de Jornalismo na Unama. A entrevista foi feita para um trabalho acadêmico da disciplina Jornalismo Impresso II e originalmente publicada em seu blog Cintaliga.

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