Início > Sem categoria > Fraternidade e Amazônia

Fraternidade e Amazônia

março 4, 2007

Em homenagem ao tema da Campanha da Fraternidade 2007, cujo tema é Fraternidade e Amazônia, reapresento esta elegia que escrevi logo após a notícia do assassinato de Chico Mendes e publicada, no livro Amazônia Urgente, de Berta Ribeiro, e em Antologias de meus poemas traduzidos, na Alemanha e na Itália.

PRANTO POR CHICO MENDES
E SUAS MORTES AMAZÔNICAS

João de Jesus Paes Loureiro

Amazônia! Ai! Amazônia!
Um pranto por tuas mortes
na morte de Chico Mendes.
Sangraram com cinco balas
seu tronco de seringueiro.
No inferno verde da terra,
catedrais de clorofila
soaram ofícios de morte,
morte de ofício e marcada.

Ai! Esse espinho cravado
no coração de Tupã.
Ai! A revolta ressoando
no colo da noite negra.
Mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Calou-se na sua voz
um ninho de uirapurus.
Remorreram nessa morte
da teogonia da terra
Angelins, Ajuricabas,
Adelaides e Josinos,
Plácidos, Guaiamiabas,
Cristos, Josés e Marias.
Nasce uma rosa de luto
no peito da tarde irada,
pois mataram Chico Mendes,
mataram com cinco balas.

Sangra uma chaga na história.
O acauã cantou perto
de um coração devastado.
Florestas de seringueiros
tombaram sem sua raiz.
Tombaram tribos inteiras
sem seu caríua feroz.
Tombaram mognos, cedros,
tombaram rios poluídos,
tombaram botos, boiúnas,
tombaram ventos e velas.
Nas seringueiras do Acre
acres de sonho tombaram.
Um pranto pela Amazônia
em sua terra enterrada.
Um pranto pela Amazônia
em sua água afogada.

Por querer o ar mais puro
pra seus irmãos respirarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer a terra fértil
pra seus irmãos cultivarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer as águas limpas
pra seus irmãos saciarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer o fogo apenas
no coração de quem ama,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Porque atirava lírios
aos pés de uma noite negra,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.

Um pranto pela Amazônia
em sua fogueira queimada.
Um pranto pela Amazônia
em Chico Mendes matada.
Ai! Amazônia! Amazônia!
Poesia verde enlutada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua voz enterrada.
Ai! Céus cravados de balas.
Ai! Cravos da madrugada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua luz enterrada.
Ai! Sua estrela de chumbo.
Ai! Sua garganta cortada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua mão trucidada.
Ai! Amazonas de lágrimas.
Ai! Sua bandeira queimada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua aurora arrancada.

Ai! Amazônia! Amazônia!
Ai! Minha terra, meu sonho,
prefiro ainda lembrar-te
doçura pura da infância,
terra sem males, poesia,
que em minha memória dança…
Ai! Amazônia! Amazônia!
Enterraram Chico Mendes,
só não se enterra a esperança

Anúncios
Categorias:Sem categoria
%d blogueiros gostam disto: