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Archive for março \29\UTC 2007

Sempre um Papo

Amanhã, às 19h, na Igreja de Santo Alexandre, estarei lendo poemas e falando sobre poesia, criação poética, etc. Será após a apresentação do grupo musical Pandora, de Luiz Pardal. Tudo na programação “Sempre um papo”, do projeto CULTURA/PARÁ, da Vale do Rio Doce.

Entrada franca.

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Bilhete

março 24, 2007 1 comentário

João de Jesus Paes Loureiro

Eu não me programei para nada
a não ser para ti.
Para estar junto a ti.
Para estar frente a ti
e te olhar com um misto
de curiosidade e fascinação.
Tu és, agora, este poema a se fazer
a obra-prima sonhada pelo poeta
a maravilhosa coreografia de um acaso
o sensualíssimo cheiro de sal e azul
que vem do mar.

Não me importa que emudeça o telefone,
que o carteiro não encontre o endereço,
que todas as estrelas apaguem,
como num teatro, as luzes,
desde que o amor continue a esculpir
teu corpo nos meus braços,
e eu possa ver tantas constelações
reunidas em teu olhar semicerrado
e teus lábios entreabertos
guardem as palavras que nunca serão ditas
a não ser à minha boca…

Que tua delicadeza encontre no meu peito
refúgio desse deserto de areia e solidão
que há fora do amor,
pois ainda que o destino me ofertasse
outros abismos de paixão
metrópoles onde fundar a minha glória
o lugar de encontrar as ilusões perdidas,
eu não me programei para mais nada
a não ser para ti
e nada importa que não seja tu.

Minha amiga Lu Guedes, compositora, intérprete e designer-criadora, gravou este poema em seu disco “Estela d’Água”. Escrevi-o para a circunstância de um recital de poesia e dança, sem pensar em publicá-lo. É um monólogo cênico. Fico feliz que tenha sido escolhido e tão bem dito por ela no seu belo CD.

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Fraternidade e Amazônia

Em homenagem ao tema da Campanha da Fraternidade 2007, cujo tema é Fraternidade e Amazônia, reapresento esta elegia que escrevi logo após a notícia do assassinato de Chico Mendes e publicada, no livro Amazônia Urgente, de Berta Ribeiro, e em Antologias de meus poemas traduzidos, na Alemanha e na Itália.

PRANTO POR CHICO MENDES
E SUAS MORTES AMAZÔNICAS

João de Jesus Paes Loureiro

Amazônia! Ai! Amazônia!
Um pranto por tuas mortes
na morte de Chico Mendes.
Sangraram com cinco balas
seu tronco de seringueiro.
No inferno verde da terra,
catedrais de clorofila
soaram ofícios de morte,
morte de ofício e marcada.

Ai! Esse espinho cravado
no coração de Tupã.
Ai! A revolta ressoando
no colo da noite negra.
Mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Calou-se na sua voz
um ninho de uirapurus.
Remorreram nessa morte
da teogonia da terra
Angelins, Ajuricabas,
Adelaides e Josinos,
Plácidos, Guaiamiabas,
Cristos, Josés e Marias.
Nasce uma rosa de luto
no peito da tarde irada,
pois mataram Chico Mendes,
mataram com cinco balas.

Sangra uma chaga na história.
O acauã cantou perto
de um coração devastado.
Florestas de seringueiros
tombaram sem sua raiz.
Tombaram tribos inteiras
sem seu caríua feroz.
Tombaram mognos, cedros,
tombaram rios poluídos,
tombaram botos, boiúnas,
tombaram ventos e velas.
Nas seringueiras do Acre
acres de sonho tombaram.
Um pranto pela Amazônia
em sua terra enterrada.
Um pranto pela Amazônia
em sua água afogada.

Por querer o ar mais puro
pra seus irmãos respirarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer a terra fértil
pra seus irmãos cultivarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer as águas limpas
pra seus irmãos saciarem,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Por querer o fogo apenas
no coração de quem ama,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.
Porque atirava lírios
aos pés de uma noite negra,
mataram com cinco balas
o nosso irmão Chico Mendes.

Um pranto pela Amazônia
em sua fogueira queimada.
Um pranto pela Amazônia
em Chico Mendes matada.
Ai! Amazônia! Amazônia!
Poesia verde enlutada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua voz enterrada.
Ai! Céus cravados de balas.
Ai! Cravos da madrugada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua luz enterrada.
Ai! Sua estrela de chumbo.
Ai! Sua garganta cortada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua mão trucidada.
Ai! Amazonas de lágrimas.
Ai! Sua bandeira queimada.
Um pranto por Chico Mendes
por sua aurora arrancada.

Ai! Amazônia! Amazônia!
Ai! Minha terra, meu sonho,
prefiro ainda lembrar-te
doçura pura da infância,
terra sem males, poesia,
que em minha memória dança…
Ai! Amazônia! Amazônia!
Enterraram Chico Mendes,
só não se enterra a esperança

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