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Hinos Dionisíacos ao Boto

fevereiro 26, 2007

João de Jesus Paes Loureiro

Do livro “A poesia como encantaria da linguagem/Hino dionisíaco ao Boto”. Ed. Cejup. Belém, 1997.

“Nenhuma coisa existe onde a palavra falta”
Stefan George*

“É no celebrar tua glória que nós, os poetas,
iniciamos e findamos a sucessão de nossos cantos”
Homero**

1

É o Boto que celebro.
O Boto de roupas brancas filho das águas e do luar.
Ele que um dia surgiu tal resplendor de um sol
no diadema da noite.
Luz no fundo túnel do desejo.
O rio cedeu espumas para que a lua
em seu tear tecesse a sua vestimenta.
Alvura, brancura, claridade.
Oh! Boto,
encantamento soprado em duas sílabas.
Esse nome despontou um dia
por sobre os promontórios da linguagem,
na crispação dos fonemas
atormentados em busca de sentido.
(Quem saberá dos peraus
onde renasce
o verbo inicial em cada nome ?)

Estava o nome ali vestido de vogais
arcado de consoantes.
Duas sílabas querendo decidir o mundo
e dividir a vida em dois
_ quem ama, quem não ama…
A palavra brotando como canto
no vale de um silêncio,
ou como o botão de flor de um ai! numa garganta,
ou como a brusca insurreição de um coral de primaveras.

Passageiro desta barca da linguagem
devo guiar o nome que me guia.
Não é somente alguém a quem transporto
entre barrancos de som e de sentido.
A mim é que transporto no transporte
que na forma conduz a quem transporto
em sílabas que cantam.
Um ser em festa de ser,
um ser nas altas colinas do desejo.
Qual o destino
conduziu esse nome ao porto do poema?
Qual o mistério
o fez ficar de pé no tombadilho
de um verso heróico espumando contra as ondas?
Que pode um verso quando uma palavra
o cavalga, escoiceia, flamba e ruma
sem buscar outra rima além de um leito,
sem cardar outro linho que o pentelho
que se entrança na racha que é seu reino ?

Oh! monarca de menarcas,
grão-senhor do rio dos encantados,
comandante investido no poema.
Tu que és sempre um salto
no abismo da paixão de ser,
serás um deus
ou modelagem humana de um desejo ?
Tu que aos homens te assemelhas
para ser dessemelhante dentre os homens.
Deflagrador de tempestades de contrários,
solitário imperador de impérios
cultivados na várzea do poema.
Conduzindo-me conduzo na poesia
esse teu ser
escravo da linguagem que é teu reino.
Em tempo mitomorfo navegando
ergo as velas verbais da alegoria
no desfraldar bandeiras e metáforas
diante do prodígio de vocábulos
que saem do dicionário
transbordados de som e de sentido,
entre espumantes vinhos são levados
aos lábios de cantares e dos hinos,
ou como rimas e louros consagrados
a coroar a fronte de uma estrofe.
Se eram palavras comuns, tornam-se raras;
já não querem dizer, querem cantar;
mas além de cantar, querem dançar;
e, muito além de dançar,
elas se querem ser outras palavras
que não sejam somente o que elas são
ora ser e não-ser
vitral e luz
ungidas nesse próximo distante
das catedrais verbais do imaginário.

Eu te saúdo nome-falus
como encantado que és
e te celebro
nesse cantar que te mantém cativo
do mesmo encantamento que cativas.
Tu que meu canto acorda em leito de morfemas
e te ergue pelas mãos de um verso heróico,
desde a pátria de hexâmetros de Homero
até as encantarias deste poema…

2

Oh! tu
que levas aos mortais
o leve salto no abismo da paixão humana.
A ti eu canto!
Tu que vens e vais, voltas não-voltas,
feito esse adeus que um deus paralisou na forma de uma lua.
Tu que arrastas a noite como um manto imenso
tal como o sol arrasta o infinito,
tal como a vela arrasta o lençol dos oceanos.
A ti eu canto!
Celebro teu ser em festa nas festas de teu ser.
Celebro a música que adorna teu silêncio,
a pura sedução de teu segredo,
a doce transgressão de teu delírio.
A ti eu canto!
cavaleiro do vale entreaberto em coxas no horizonte de algum ventre,
personagem das mil e uma noites
das varzeas, dos peraus, dos igapos…
Tu que amas as danças e a vertigem
dessa orgia de ser.
Herói de tróias de tábuas e maqueiras,
glorioso filho das encantarias.
Tu és aquele escolhido pelos hinos
coroado de limo, mururés
e antiquíssimas cicatrizes da coroa de louros.
Pura aparência de imortal essência.
Olhares te procuram,
as cunhãs te seguem com o desejo fisgado em teu anzol
sob o silêncio cúmplice de águas e florestas.

Eu te saúdo
rio andante e sexuado
luz das noites
ardor ardendo no leito da cunhã
que espera desde sempre tua chegada
e, para sempre, se parte em tua partida…
Te espera antes da chuva e após a chuva,
lambida de suor ela te espera
espera pelas mãos do novenário
e noite-a-dentro espera dias-a-fora
envolta em solidão espera e espera
pelas frestas abertas de um desejo
espera nas insônias insaciadas
na timidez espera
na embriaguês do devaneio espera
por teu ser de longa espera e breve instante.

Eu te consagro aqui
grande esperado,
que a eterna espera faz teu ser eterno.
Oh! filho de Dionísio, neto de Selene.
Errante cavaleiro do sagrado
instalado em palavra que te instala
como tronco submerso em rio de encantarias.
Vocábulo lançado na essência da linguagem
como um dado,
como carta de um baralho e seus arcanos.
No vale do desejo e do poema
palavra pertencida que pertence,
edificado templo articulado
de sentido e som, violino e arco.
Revelação por si mesma revelada,
a tua essência
é luz no vitral das aparências,
pura aparência que se faz essência
para ser.
Amor que vem à luz numa palavra inscrita no destino,
teu ser irrompe no nome como um jorro
tronco
da funda encantaria da linguagem.

Eu te saúdo
crista de sol raiando no horizonte
dessa noite carnal das que te amam,
palavra-ser, palavra que é, palavra corpo-e-alma
palavra erotizada que te funda
já que em teu nome és isso que és.
E se a linguagem não se faz poema
teu nome nascituro, morituro nome
resta inerte, imóvel, inútil numa dúvida.

3

Oh! tu, ora instalado na palavra
entre nós habitando no poema,
morador que também é sua morada
onde tudo o que é se faz em sendo.
Oh! tu, que de poesia a terra habitas
seja exilado nas ilhas de um poema
ou nas areias sem fim de maiandeuas,
esse teu ser de silêncios e de ausências
é na palavra que instaura tua vida.
Tu vives na palavra de uma espera
ou na palavra da ausência
e na presença
de rosnares de orgasmos numa alcova.

Oh! palavra em festa na linguagem,
essência de alegria, gozo, canto,
existência do ser sendo prazer.
Teu reino não se nutre de conquistas
nem ouros
nem tesouros.
Teu reino é o dos fonemas
onde habitas e danças
rejubilas
e morres sem morrer
pois ressuscitas
cada vez que um relato te relata
ou que suspira em sílabas de espera
a cunhã que na rede te soletra.
Entrelaçado efêmero no eterno.
Divindade recolhida na palavra.
Palavra-templo que te abriga e de onde
errante sacerdote de Dionísio
vagas na margem dos rios e do desejo
polinizado nos lábios que te chamam.

Teu nome vela o ser e o ser desvela
na suprema solidão de seu destino
e brota como um peixe à flor das águas
desse rio de desejo submerso
na fêmea que te sonha ou que te fala.
Em sílabas teu ser se faz eterno
enquanto és o desejo de um desejo,
a espera de uma espera de uma espera.
Tu és pelo que és e o que não és.
Teu leito já não é praia ou canoa,
mas a página onde a lua espelho espelha
na encantaria da linguagem que é a poesia.

E deixas de existir
agora que o poema se recolhe
feito maré juzante
descobrindo
a praia de uma página tão alva
e apaga pela areia desvelada
esse teu nome-ser assim velado.
Mortapalavra sob a espada de um silêncio
que espera renascer na voz de outro poema.

NOTAS

* “Nenhuma coisa existe onde a palavra falta” (Kein Ding sei wo das Wort gebricht ), diz um verso de Stefan George comentado por Heidegger. In NUNES, Benedito. “PASSAGEM PARA O POÉTICO”. Editora Ática, SP. 1986.

** HOMERO. “Des Héros et des Dieux” (Hymnes). Traduit du grec et présenté par François Rosso. Ed. Arléa, Paris. 1993 (A tradução dos versos da epígrafe são de Paes Loureiro).

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