Outubro 18, 2009

Poemas sobre o Círio de Nazaré

_________________________

Oratório do Círio de Nazaré

João de Jesus Paes Loureiro

Belém do Pará/1986

O Círio

O Círio vai passando como um rio.
Rio de anjos e brinquedos de miriti.
Como um rio
e sua multidão de ondas caminhantes.
Como um rio.
O Círio vai passando como um rio.

Passa a Barca dos Marujos.
Passa a Barca dos Milagres.
Passa a Barca dos Arcanjos.
Passa a Barca das Girandas.
Piracema da fé na rua que é rio!
Passa a Barca da Berlinda
periantã de lírios
arcano a navegar à flor das almas…

O Círio vai passando como um rio.
A correnteza de um rio
com alma e devoção.
Rio de sílabas velozes.
Sonoro rio
e seus cardumes de canções.
Um rio de ondas submarinas,
pleno de naves aves velas e velames.
Um rio devoto
navegado pela fé,
peixe a navegar por entre a correnteza.

Carro dos Anjos

Anjos anjos anjos
Nuvem de anjos passando entre mangueiras.
Anjos anjos anjos
Carro de anjos passando pelas ruas.
Anjos anjos anjos
Nuvem de anjos em túneis de mangueiras.
Anjos anjos anjos
Carro de anjos levado pelas ruas.

Asas de anjos roçando nas mangueiras.
Asas de anjos pousando o céu nas ruas.

Senhora de Nazaré

Senhora,
talvez aqueles que te levam
pelas ruas
no azul levíssimo da alma
nem percebam
que é por todos nós que passas…

Senhora,
tu que passas sobre todas as cabeças,
coroa de cantares e perfumes,
entre pedras, paus, penas e espinhos
hás de tornar cada vez mais suaves
nossos caminhos…

Senhora,
barca de flores
caviana mística
coração de pétalas no peito da manhã
Iara boiando em águas encantadas
rosa mística, “lírio mimoso”, cântico dos cânticos…

Senhora de Nazaré,
tu que passas pisando nosso chão
coroada de sonhos e de flores,
só não hás de passar no ardor do meu coração…

Carro dos Milagres

O Carro dos Milagres é um barco.
Navega sob nave de mangueiras
nas ruas de Belém…
No tombadilho
acumulam-se pernas, troncos, braços,
cabeças destroncadas,
destroços de poesia, cacos de esperança.
Acumulam-se casas, igarités, malárias, espinhelas.
Acumulam-se mazelas e penas desta vida…

Quando, nesse barco
tripulado por sonhos,
equipagem de graças e milagres,
há de haver
o cocar de algum índio celebrado
e o punhado de terras do colono
que garantiu seu chão para viver?

Quando há de haver
no Carro dos Milagres,
como no alvo garçal de Monte Alegre,
o levíssimo pousar de aves claras
revelando
que entre nós a paz pousou na terra.

A Virgem na Berlinda

Em meio à multidão
quisera ser
tão só
um desses lírios em teu andor,
para estar a teus pés
para sentir teu perfume
para bem perto olhar
teus pequeninos olhos de ternura.

Quisera ser essas folhas de mangueira
à tua passagem
e te roçar de leve com meus lábios.
Quisera ser esse raio de sol
por entre as folhas,
para tocar tua imagem e te aquecer.
Quisera ser essa brisa
das manhãs de Belém,
para agitar levíssimo o teu manto.
Quisera ser um hino
a rebrotar dos lábios das crianças.
Um hino em teu louvor!
Quisera ser os passos da paixão
te acompanhando,
como o peixe acompanha
a procissão das águas,
como o tema da canção
que passa
por entre a melodia.
Quisera ser as sílabas do amor
para a linguagem ser dos que te amam.

A Corda

Mãos rezam na corda
Arrastam de amor o Carro da Berlinda
Mãos na corda arrastam a fé
Mãos na corda arrastam
Mãos na corda
Mãos na
Mãos

Mãos sonham na corda
Arrastam de ardor o Carro da Berlinda
Mãos na corda arrastam a esperança
Mãos na corda arrastam
Mãos na corda
Mãos na
Mãos

Mãos sangram na corda
Arrastam fiéis e o Carro da Berlinda
Mãos na corda arrastam a caridade
Mãos na corda arrastam
Mãos na corda
Mãos na
Mãos

Mãos tecem de mãos a corda
Arrastam homens e mulheres para dentro de sua alma
Mãos na corda arrastam o céu na terra
Mãos na corda arrastam
Mãos na corda
Mãos na
Mãos

Louvor à Virgem

Senhora de Nazaré!
Meu coração
em teu louvor
sangra, queima, se renova e dança,
faz-se de amor por ti.
Toma-me para sempre em tua devoção.
Aprisiona-me, Senhora,
na liberdade azul de minhas asas…

Sou livre
se encarcerado sou
em teu amor.
Sou mais alto
ajoelhando-me a teus pés.
Sou infinito
mesmo sendo grão de poeira
ínfimo, que pisam
os que te levam no ombro e ao coração…

Senhora de Nazaré!
Muiraquitã no colar de cordas e de mãos.
Cocar de luz na fronte indígena
de nossa emoção original.

Senhora de Nazaré
Dá-nos amor!
Senhora de Nazaré
dá-nos a paz!
Senhora de Nazaré
dá-nos amor e paz
como luz e pão de cada dia…

_________________________

A moto-romaria do Círio

João de Jesus Paes Loureiro

Belém do Pará/2009

Romaria de motocicletas.
Liturgia tecnológica
no cantar o canto-chão de máquinas em coro,
rezando pelas descargas,
orando pelas buzinas,
acelerando a crença
no velocímetro da fé.
Máquinas em devoção metálica.
Transfiguração de pés em rodas peregrinas.
Palavras embreadas na linguagem.

Mudando a marcha do tempo
a moto-romaria
avança pelas ruas do que é
em busca do vir a ser no que será.
Signos tatuados em braços,
costas, peitos, ventres, pelvis, pernas
de um novo corpo místico.
A pós-modernidade aqui que se faz litúrgica
convertendo a moto, símbolo rebelde,
em signo devoto.

Relâmpago de preces
na veloz velocidade mecânica
de nossos dias.
Motocírio ansioso furando o túnel de mangueiras,
abrindo um buraco na luz da manhã.
Devoção metálica de uma época
que não tem mais tempo para o tempo.

O antigo veste roupa nova,
ou é o novo que celebra o antigo?
Rios a encontrarem-se nas águas,
correntezas litúrgicas,
almas abraçadas
pelas ruas de Belém.

Cheiro de gasolina
entre incensos e patichulis.
Buzinas feito campaínhas.
Colares de sementes
entre escapulários.
Descargas pelos canos explodindo
sonorizando fogos de artifício.
Corais motorizados que rezam ladainhas.
A imagem na Berlinda
sobre o carro de bombeiros,
avança
entre os incêndio da fé que arde nas almas.

Com que súbito espanto,
de seu calmo céu de catecismo,
anjos, de harpa nas mãos,
hão de entender essa missa dionisíaca de máquinas?
A romaria das motos pelo asfalto
arromba as portas do silêncio,
da indiferença,
do conformismo
e abre,
sob túneis de mangueiras,
uma nova estrada de amor e de esperança.

Janeiro 20, 2009

EU DEFENDO

O tombamento do Teatro São Cristóvão, Teatro de Pássaro

João de Jesus Paes Loureiro

O Teatro São Cristóvão, fica localizado na parte interna do terreno que tem, na área da frente, a sede do tradicional e importante Sindicato dos Motoristas de Belém. Ainda que esteja em São Paulo no período em que se comemora a fundação de Belém do Pará, soube da notícia do pretendido “tombamento” isolado da sede do Sindicato, gerando divergências quanto à validade ou não de incluir também nesse processo de tombamento o teatro. Com sempre há conflito de opiniões no torvelinho que gira no eixo desse tipo de tema, não posso me omitir no momento em que se coloca essa questão, quando ainda há tempo de poder contribuir ao seu encaminhamento. Coloco, mesmo à distância, meu ponto de vista próximo do problema, uma vez que venho testemunhando como poeta (escrevi, publiquei, tendo sido posto em cena, musicada por Waldemar Henrique, a peça “Pássaro da Terra”, dentro da estrutura cênica desse teatro popular), pesquisador (analiso esse teatro paense em minha tese de doutoramento “Cultura Amazônica – Uma poética do imaginário”) e administrador público (quando desempenhei as funções públicas de Secretário Municipal de Educação e Cultura – de onde saiu a Fumbel, Superintendente da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves, Secretário de Estado da Cultura e Presidente do Instituto de Artes do Pará) a importância artística e cultural do Pássaro Junino e o significado social desse espaço cênico. Não poderei apresentar dados estatísticos relativos ao tema da relevância cultural desse espaço, visto não estar em Belém, mas, para quem quiser entender, as palavras bastarão para demonstrar o que desejo, fruto de compromisso com a cultura do meu amazônico Estado.

A história, o imaginário, a memória, os signos culturais, ainda que conceitos abstratos, necessitam estar ancorados na realidade concreta para se sustentarem no tempo. É o que, referindo-se à ficção romanesca, Roland Barthes denomina de “efeito do real”. O real legitimando o espiritual, o concreto sustentando o imaterial. Todo espaço de concretização da história e da cultura torna-se um espaço “sagrado” e cerimonial de legitimação daquilo que nele fez a sua realidade. A interminável guerra no oriente médio é também uma luta pela posse de espaços concretos de legitimação imaterial de crenças.

A perda dos lugares é intercorrente com a perda de suas significações. E, ao mesmo tempo, a diluição de sentido daquilo que nesses espaços construiu sua existência. A destruição do Lago Espelho da Lua, por exemplo, no município paraense de Faro, lugar da celebração anual de amor das Icamiabas – as Amazonas, seria um golpe mortal, a longo prazo da lenda, que é uma das faces do rosto de nossa identidade. O que seria do Círio de Nazaré sem o lugar caminhante de sua peregrinação da Sé à Basílica-Santuário? Há Círio de Nazaré em outros lugares. Mas o lugar legitimador do Círio de Nazaré, mesmo em Belém do Pará, é o espaço desse chão que vem da Sé, bordeja o Ver o Peso, navega pelo Boulevard, ondeia sob os túneis de mangueiras da Presidente Vergas e Av. Nazaré, até desaguar na Pça. Santuário da Basílica. Os espaços concretos transfiguram-se em espaços simbólicos e são ritualisticamente suportes concretos da imaterialidade desses bens. Haveria perdas essenciais para o mundo católico, por exemplo, a destruição da Basílica de São Pedro e sua Capela Sistina. Risco para a devoção à N. S. de Fátima decorreria do corte da oliveira sobre cuja copa a santa pairou diante do olhar extasiado daqueles irmãos camponeses Lúcia, Jacinta e Francisco.

Os lugares resultam de construção material e espiritual, visível e imaginária, individual e social. Mas o produto e o destino dessa construção plural é coletivo. Se a casa é do indivíduo, a cidade é de todos os seus habitantes, da sociedade que nela constitui o pertencimento sua humanidade. Há, portanto, uma alma na cidade tecida pela cultura e o entrelaçamento das vidas, que une passado ao presente e sua passagem para o futuro. Dessa atmosfera espiritualizante revela-se a poética das cidades que faz delas uma integridade trasladando-se no tempo, que não deve sofrer violências simbólicas por soluções urbanísticas que não respeitem sua história cultural e a pluralidade de direitos dos cidadãos sobre a sua cidade.

Creio que, uma das questões éticas na estética de uma cidade decorre dos desenraizamentos provocados na medida em que se destroem os referenciais da memória, abrindo-se campo para uma espécie de “nostalgia sem memórias”. Ou, como quer Frederic Jamerson, a nostalgia de um presente que se perde. Pela homogeneização, quando se perdem os referenciais locais, projetando-se nas paisagens da construção de mundos imaginados, as pessoas, vivendo que vivem no lugar, imaginam-se vivendo vidas de outras cidades, de outras vidas.

Voltemos à nossa questão particular: O Teatro São Cristóvão. É o nosso teatro dos pássaros. O lugar tradicional de apresentação do Pássaro Junino. Aliás, o único espaço historicamente legitimado para essa modalidade de arte cênica, criação do povo do Pará, expressão simbólica da cultura paraense, e a mais significativa expressão popular da arte cênica. O Pássaro Junino é a relevante e original contribuição da cultura paraense ao ciclo junino da cultura brasileira. Um teatro ainda atual e sobrevivente pela dedicação de sua comunidade emocional. Não é um retrato na parede do passado.

A cultura no local é um dos fatores fundamentais para a existência social da cidade e um dos fatores de pertencimento de sua população. Quando esse valor é percebido pela sociedade, a importância de sua preservação está garantida. Mas é necessário que esse reconhecimento venha de uma fração da sociedade capaz de influências e decisão por seu capital econômico e social. Ou, quando no caso da população de baixa-renda, mas de grande capital cultural, ela se mobiliza para garantir seus direitos na história cultural do lugar.

A preservação de bens histórico-culturais decorre de uma consciência social de valor. Qual é a fração da sociedade paraense que tem o Pássaro Junino legitimado como um valor? Não é a classe media e nem a alta, de onde vem a hegemonia político-econômica. Inclusive, essas classes sociais já legitimaram seus espaços: Teatro da Paz, Margarida Schivazzapa, por exemplo, igrejas e museus. Mas a classe popular, que tem o sentimento do pássaro e reconhece seu valor, não tem participação dominante nessa hegemonia cultural sustentada pelo político e econômico. Vive num processo permanente de resistência para garantir seus bens simbólicos, quando seria justo que vivesse no gratuito prazer de cultivá-los.

Quando na preservação predomina o valor econômico material, a possibilidade de transformar o prédio em espaço de negócio e lucro, de um modo geral torna-se mais fácil. Porém, se o que se pretende garantir é o lugar concreto de um bem imaterial, a consciência social e moral não consegue sempre vencer a mentalidade do lucro. É o caso do Teatro de Pássaros em questão, o Teatro São Cristóvão.

Por que esse fato polêmico se torna paradoxal? Porque ele é anacrônico, socialmente injusto, moralmente discutível e atenta contra a mais recente orientação brasileira, através do Ministério da Cultura: preservar o patrimônio imaterial da cultura nacional. Aqui no Pará, para lembrar, luta-se ainda em busca da necessária hegemonia (que deveria ser já consensual) para garantir-se o precioso e necessário tombamento do Carimbó nessa categoria de reconhecimento e valor. Mas a comunidade do Pássaro é menor. Diferentemente do Carimbó, não se tem refletido em produção profissional de artistas de variadas categorias e classes sociais, o que significa um reforço de capital social e econômico à causa do ritmo emblemático do Pará. Mas o Pássaro tem voado sem ter onde pousar. Semelhante ao seu enredo, o incansável caçador que vem perseguindo o Pássaro Junino vem sendo a exclusão, a insensibilidade, o não-reconhecimento de valor e o preconceito.

O tombamento e preservação de monumentos tem sua dificuldade decorrente de: 1)Ignorância e negligência; 2)na cobiça e na fraude; 3)nas idéias equivocadas a respeito do progresso ou das demandas do presente; 4)na busca descabida de embelezamento e renovação, na falta de uma educação estética, ou numa educação estética equivocada.[1] Ao que eu acrescento a especulação e uma equivocada busca de beleza. Não estamos diante de passadismos ou conservadorismos. Mas de estima e consciência moral na educação do espírito. A união entre presente e passado pelo devaneio e o sentido de tempo pertencido. Quantas recordações são deletadas na demolição de monumentos históricos? Eles não são velhos farrapos que o progresso despreze como inadequados aos novos tempos.

A perda de patrimônio cultural é um empobrecimento da vida. Sendo assim, a proteção de monumentos não se deve voltar apenas aos estilos do passado, mas contemplar também suas características locais e históricas, as quais não estamos autorizados a corrigir segundo as regras que nos aprouverem, pois essa correções geralmente destroem aquilo que confere um valor insubstituível até mesmo aos mais modestos monumentos.[2]

Enfim, lembro que na Constituição do Estado há suporte legal para o tombamento de bens culturais do Pará. Na época de sua discussão e elaboração, o deputado relator do capítulo sobre Educação e Cultura, Dr. Zeno Veloso, solicitou-me a indicação de itens para os artigos referentes à cultura nesse capítulo. Analisamos em conjunto a matéria e dentre aqueles que sugeri, logo aceitos por ele e incorporados em sua proposta, está o tombamento de lugares onde aconteceram narrativas míticas, fatos históricos e manifestações relevantes da cultura. O espírito da lei é reconhecer o entrelaçamento necessário do imaterial com o material, do simbólico com o concreto, legitimando o material visível como condição necessária ao simbólico imaterial.

O tombamento do Teatro São Cristóvão, patrimônio material, como lugar tradicional do Pássaro Junino em Belém, patrimônio imaterial nele legitimado, pode ser seguramente receber beneficio dessa legitimidade constitucional.


[1] DVORÁK,Max. Catecismo da preservação de monumentos. TRD. Valéria Alves Esteves Lima. Ateliê Editorial. SP, 2008 p. 67

[2] Idem

Novembro 15, 2008

Pranto por Dona Noêmia

Sr. João de Jesus Paes Loureiro.
Venho lhe comunicar através desta o falecimento de
minha mãe Noêmia da Silva Pereira, a quem lhe tinha
como grande amigo.
Sempre que ela precisou o senhor sempre a ajudou.
Obrigado o senhor sempre a incentivou na sua cultura e
na hora da doença grave ela mandou-lhe falar pro senhor
se pudesse ajudar na construção de seu túmulo caso ela viesse
a falecer,
……………………………………………………………………………………….
Ela está enterrada no cemitério Santa Maria,em Carananduba,
Mosqueiro. Caso o senhor não possa ajudar, obrigado por
tudo o que o senhor fez pela minha mãe que Deus
lhe ilumine.
Danúbia da Silva Pereira
10-11-2008″

Quem era essa mulher
feita de rendas
pele noturna felina e querubínica,
aureolada pela lua de sua poesia?

Quem era essa mulher
de sonho e osso
de alma musical e terno canto
com o fervor da bondade em seu olhar?

Quem era essa mulher
feita de carne
na esculpida matéria da cor negra
e rios indígenas correndo em suas veias?

Essa mulher nascida na Ilha do Mosqueiro,
servente aposentada de escola municipal,
mãe de muitos filhos,
mulher a carregar na vida
o esposo paraplégico
invertendo a versão do amor Tambatajá.
Essa mulher
que não cansava de andar a cada dia
na busca desse pão da cada dia
em dias e mais dias e mais dias.

Essa mulher tem um nome,
Noêmia da Silva Pereira,
matriarca da cultura junina do Pará,
que fez da vida o sacrifício de tornar
mais leve pela arte a vida também dura,
das criancinhas, dos humildes e excluídos.
Essa mulher de quem talvez ninguém se lembre,
que não foi consagrada pelo andor da mídia
que não foi coroada de manchetes
que não recomendou políticos ao voto
que não fez propaganda de produtos
que nem sequer desfilou portando modas
que não era reconhecida, anônima, nas ruas
que nem sequer tem um túmulo decente
em que possa repousar também na eternidade.

É a grande autora, encenadora, musicista
de Pássaros Juninos, Bumbás e Pastorinhas
com jovens e crianças no Pará.
Que veio ungida por deuses e caruanas
para arrancar a luz do solo em que pisasse,
para espalhar luar em noite escura.

Noêmia, certamente, um dia foi beber
na fonte da juventude revelada por Virgílio…
No campo das idéias
era mais nova que todos os mais novos.
Ela foi, dentro de si, sempre menina
com a adolescência que a arte propicia
aos que têm na poesia o seu secreto ser.

Vida vida vida…
Por que só tu tens o metro
de medir a tua medida?
Essa mulher, eu sinto, há de ser mais do que tu.
Pois sua medida é maior que tua medida
e sua medida com morte não se mede.
É vida a se medir sempre com vida.

Noêmia.
                  Este poema,
rosa de luto que tomba em tua tumba.
Não há como dizer que não te foste.
E tu te foste, é certo, discreta, ao teu estilo,
Voaste alada e leve nas encantarias
para o terreiro junino das estrelas…

Agosto 6, 2008

Antipoema 7

Morte na Estrada

João de Jesus Paes Loureiro

Foi no quilômetro 130.
Entre Salinas e Belém do Pará.
Cinco horas em ponto
de uma tarde inocente ao pôr do sol.
Vinte e sete de julho de 2008.

Às cinco horas cravadas nessa tarde,
cinco jovens de súbito tiveram,
ponto final fechando
a frase ainda incompleta de suas vidas.

Cinco jovens. Cinco estrelas
na maravilha do céu da juventude.

Quem contra essa constelação
arremessou
o seu cometa de aço alucinado?

A morte sempre vem na contramão da vida.

(Foi esse mais um crime
para manchetes atônitas
para releases agônicos
para silêncios afônicos
ou para impunidades crônicas?)

A morte deveria ter pudor dos jovens.

Dentre as cinco silenciadas quando vinham
coroadas de cânticos e risos
estava Hanna,
tenra folha de loureiro
arrancada, tão súbito, dos ramos.

O raio da notícia atravessou as almas
e fez um vácuo em cada coração.

O poema
(tendo nas mãos
velas do verso acesas
na chama de uma rima)
curva-se
e beija para sempre
o rosto dessas cinco vítimas do homem
cada vez mais lobo do homem.

Para fugir do mundo
em que a vida perdeu a paz
e a paz perdeu a vida,
acesso a internet.

O rosto de Hanna me olha do Orkut
como do outro lado do eterno…

Maio 31, 2008

Acalanto

João de Jesus Paes Loureiro

 

É noite é noite alta
                                e no poema
silabam-se saudades de quem amo.

 

O que faria agora
                              nesta hora
aquela que me ama
                                 e a quem eu quero?

 

Porque não vem
                             aqui comigo
entre  as estrelas
que adornam o colo claro desta noite…
(A noite debruçando em meu silêncio
 a flor da solidão, pálida lua…)

 

Oh! sonho traz-me em tua caravela
aquela que me ama
                                 e a quem adoro…
Tão bela
                Em sua moldura de ternura,
de alma musical
                             e meigo canto.
Então, brisa da noite, oh! brisa  leve
Revoa  sobre o sonho – essa lagoa -
e pousa na sacada onde ela espera
a estrela onde me escondo para vê-la…
Vai a seu leito e roça nos seus lábios
esta flor
               esta  pétala  de beijo.

 

Mas tão de leve que ela não desperte
e mansamente continue sonhando…

 

* * *
Do livro “Altar em Chamas”. Prêmio Nacional de Poesia pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, 1984. Editora Civilização Brasileira/RJ

Maio 15, 2008

Antipoema 6

Triste Amazônia ou o empate de Marina Silva

João de Jesus Paes Loureiro

 

Tu és frágil sim
mas tu és forte.
Tu pareces uma delicada lenda xapuri
mas tu és forte.
Tu pareces uma pétala da floresta
mas tu és forte.

Tu estavas ali
braços cruzados contra o latifúndio.
Tu estavas ali
braços cruzados contra os grãos da morte.
Tu estavas ali
cabeça erguida contra as chamas das queimadas.
Tu estavas ali
contra os tratores e correntões do erro.
Tu estavas ali
o coração na mão a defender
teus antigos irmãos
irmãos de sempre.

A teu lado estava Chico Mendes.
A teu lado estava Dorothy Stang.
A teu lado estavam Pe. Josino, Espártacus, Canuto
Paulo Fonteles, Mártires do Araguaia,
Ianomâmis, Zumbi, Ajuricaba
Guaimiaba, Herzog, Luter King,
Cristo, Caruanas, Édson Luís
legiões de rostos desaparecidos
rostos que poderiam ter sido nossos filhos
nossos pais, irmãos, nossos amigos
que desceram à cova e se plantaram
sementes da Amazônia e do Mundo que queremos.

Ai!Amazônia!Amazônia! Quem te ama?

Ai! Marina! Marina!
Que posso a ti oferecer senão o sonho
a indignação e o desespero,
quando buscaste apenas a terra da doçura
para o índio, nativo da terra
para o colono, semente da terra
para a Amazônia, paraíso na terra.

Nenhum decreto há de enterrar tua luz
porque tua luz há de queimar decretos.
Tu que és da Amazônia
a Amazônia retiraram de tua mão.
Mas não há força humana ou desumana
capaz de retirar
a Amazônia cravada em teu coração.

Maio 6, 2008

Réquiem para Dorothy Stang

Poema de João de Jesus Paes Loureiro
(A música litúrgica está sendo composta por
Paulo José de Campos Mello)

1. Introitus

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Amazônia! Amazônia!

A liberdade dos pássaros voando.
A liberdade dos peixes navegando.
A liberdade das águas desaguando.
A liberdade das árvores crescendo.

Amazônia! Amazônia!

Cristo caminhava sobre as águas.
Rudá revoava nas florestas.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males viveu.
Foi ali que Dorothy Stang
pela terra sem males morreu.

2. Kyrie

Senhor
tem piedade da terra e do homem da terra.
Cristo
tem piedade da terra que mata o homem da terra.
Rudá
tem piedade do homem que morre em defesa da terra.

3. Dias irae / Lacrimosa

Dias de ira virão
quando a floresta
for somente cinzas.
Dias de ira virão
quando a vida na floresta
for somente cinzas.
Assim diz o canto do acauã.
Assim diz a voz de Dorothy.
Dias de ira virão na terra vã.

Ai! Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, Chico Mendes
Pe. Josino, Canuto, Mártires da Terra.
Dias de lágrimas
por Dorothy Stang, nossa irmã,
que por ela já não canta o acauã.
Tudo acabou.
Tambaramã.
Tudo Acabou.
Tambaramã.

4. Sanctus

Santos! Santos! Santos!
Jesus Cristo! Caruanas! Encantados!

Recorda-te Jesus Piedoso.
Recorda-te Rudá, Deus da Floresta.
Tu que sempre acompanhaste os homens
e mulheres da terra,
por que deixaste só nesse caminho
nossa irmã Dorothy?
Assim foi alvo tão fácil para as balas
seu coração de pássaro sem ninho.
Rio de sangue.
Tamalatiá.
Rio de sangue.
Tamalatiá.

5. Benedictus

Bendita irmã
que vieste em nome do Senhor!
Não pudeste vencer o latifúndio
assassino do homem,
algoz da natureza.
Quem poderá nos salvar?
Quando o dia da justiça há de chegar?

6. Agnus Dei

Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
Tem piedade de nós.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
por que não tiraste da mira do assassino
nossa irmã Dorothy?

Seis balas cravadas em seu peito
só derramaram amor do coração.
Estava só nessa hora e sem defesa
aquela que defendia cada irmão.
Cristo-Rudá!
Tu que tiraste os pecados do mundo
não pudeste impedir
que Dorothy
morresse na mão do algoz.
Tem piedade de nós.

7. Lux aeterna

Tambores da terra
Tambores da água
Tambores do fogo
Tambores do ar.

Tambores de toda a Amazônia, tocai!
Pela irmã Dorothy Stang, tambores tocai!

Para acordar o coração do mundo
tambores tocai!
Para romper o silêncio do mundo
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!
Por aquela que viveu pela terra sem males
tambores tocai!
Por aquela que morreu pela terra sem males
tambores tocai!
Por nossa irmã Dorothy Stang
tambores tocai!

Dá-lhe, Senhor, repouso perpétuo e sublime,
que ela merece todos os hinos
e que a luz eterna divina a ilumine.

Abril 8, 2008

Antipoema 5

Retomo aqui a publicação de meus Antipoemas, já inciada neste Blog. Creio que a poesia é necessária, sempre, mesmo pelo seu avesso. A série que agora se desdobra mantém a linha de temas circunstanciais do cotidiano. É meu modo de sentir poeticamente o mundo, a cada dia, a cada hora, e como a poesia pode, quebrando regras e barreiras, nascer.

Crianças assassinadas

João de Jesus Paes Loureiro

O que faz a mão
levantar uma arma
contra uma criança?
O que faz a mão
cortar o fio
entre o real e o sonho
que equilibra no ar
uma criança?
O que faz a mão
trazer a morte
para quem traz a vida?

Deus,
porque não afastas esse cálice
de amargura
de teus próprios lábios?
E dos nossos, também?
Por que não abates essa mão
no caminho do crime?
Não podes mais, meu Deus,
manter esse descanso
que mereceste após a criação.
Acorda, Deus do amor,
reassume o caos do mundo
e tenta recriar a humanidade…

Março 28, 2008

Poesia e História

Na época do assassinato, pela polícia militar da ditadura, do estudante Edson Luís Lima Souto, em 28 de março de 1968, escrevi este poema. Declamei-o, pouco tempo depois, na primeira apresentação de Os Menestréis (Música e Poesia), no Teatro do Bancrévea, na lo. de Março, aqui em Belém do Pará. Tive que repetir a leitura a pedido do público que lotava a platéia. No mesmo ano, poucos meses depois, o poema saiu publicado no meu terceiro livro de poemas Epístolas e Baladas, que teve seu lançamento interrompido por ação da polícia militar que, “coincidentemente” fez uma operação repressiva aos subversivos, na área do lançamento, tendo a Livraria da Editora Grafisa sido obrigada a fechar atropeladamente as suas portas e os convidados presentes cuidaram de sair a tempo.
Eis, em seguida o poema, 40 anos depois:

 

Epístola sobre Édson Luís Lima Souto

João de Jesus Paes Loureiro

Poderia ter sido nosso amigo…
Poderia ter sido nosso irmão.
Poderia ter sido nosso filho.
Poderia ter sido.
Poderia ter.
Poderia.
Poderia ser e foi.
Após o seu martírio
transmudou-se
em nosso filho, nosso amigo,
nosso irmão.
O seu nome foi Édson
e poderia ser Antônio, ou Flávio,
ou Bento,
antes que a lâmina da bala
decepasse
a sua agora, irremida infância.
Jornais tornaram-se pássaros noturnos
com tanta letra enlutada.
Uma estrela de platina
sacudiu suas pétalas.
O último samba que desceu do morro
tem uma nota breve
em longo pranto.
O motor da alegria
oxida-se com o tempo.
A linha divisória se acentua.
O poema grela em chão martirizado.
Nada existe sem luta,
nem o amor.
Recusam-se meus versos perfilarem-se
à fila do gatilho,
ou levar _ Cireneu _ ao sacrifício
a cruz das rimas.
É preciso lembrar que a alça de mira
eleva a pontaria a qualquer ombro…
Cada dia atual, dolosamente,
nos ensina a tristeza e seus ofícios.
A porta do Calabouço
pode ser também porta de vida
ou morte.
E foi por esta que o arremessaram
e lhe entregaram a chave compulsória
no íntimo do peito,
- lá onde talvez pousasse
ainda sem asas
o seu primeiro amor…
Queria um prato apenas para todos.
Um prato, por maior que seja,
é bem menos que a vida.

Ele sonhava prato completo
- assim como uma rosa –
para todos
igual…
Não desejava a mesa de ninguém.
Queria a sua e de seus companheiros.
(Comer, talvez, não seja crime)
E deram-lhe um lençol como toalha
e no seu corpo serviram a ceia intolerante.
Foi bem à vista de todos.
A canoa de sua juventude
na jusante quebrou-se contra o dia…
Nunca assinara, sequer, um manifesto.
Todo o povo estremeceu
de um forte rancor gelado.
É muito fácil manejar um tiro.
Um pouco de energia
ou de temor
e vai na ogiva da bala
um satélite de sombra.
Uma vida, porém, é bem difícil.
Embora sempre trama ou emboscada
a vida é linda senhores…
Um rouxinol é mais difícil soltar
do que uma bala,
e a vida não se refaz
como uma pontaria…
O tiro, nunca importa de quem veio,
mas sua responsabilidade.
Uma pétala rolou de minha dália de alegrias.
O rio que tenho n’alma transbordou.
Há um crepúsculo em mim
de tanto sonho enlutado.
Não se aniquila assim
a fome do futuro.
A morte deveria ter pudor dos jovens.
Mas o importante na vida
é não a trair.
A minha geração tem dois caminhos:
martírio e sacrifício!
A fome é a esfinge dessa encruzilhada.
A caneta desfere as balas-verbo
no muro do papel.
Como nos quitar com ele?
Com um manifesto?
Um gesto?
Ou um protesto?
Ou impedindo
que novo dia torne-se mortalha?
Estaremos pagos com o futuro
só com este pranto presente?
Poema: qual o grito que nos salvará?
Uma bandeira o cobre?
Que bandeira?
(“Silêncio Musa,
chora
e chora tanto,
que o pavilhão se lave no teu pranto”)
Ah! Como se cravam em minha língua
silenciosos alfinetes
e os meus dentes mordem
um girassol calado.
O verso vem cavalgando a estrofe
pelos caminhos da página.
As passeatas que levavam
um horizonte de faixas,
dobraram as últimas esquinas…
As manchetes – primadonas agudas –
retiram-se do palco.
Édson Luís Lima Souto
mergulha na legenda!
Inutilmente?
O silêncio passa
_ cisne de luto na lagoa de março.

Fevereiro 22, 2008

Antipoema 4

Espantalhos

João de Jesus Paes Loureiro

As motosserras,
piranhas em cardumes,
no desespero da fome desvairada,
descarnaram com dentes reluzentes
as mangueiras molduras
do Cemitério da Soledade.

Deixaram enfileirados nas calçadas
- sepulturas reviradas pelo avesso -
esqueletos vegetais, em pânico, insepultos.
Espantalhos horrendos
afugentando a beleza da cidade.